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Mircea Eliade – Mito e realidade

ARTE E A FASCINAÇÃO PELA DIFICULDADE

Assinalaremos em primeiro lugar a função redentora da “dificuldade”, principalmente como é encontrada nas obras de arte moderna. Se a elite se apaixona por Finnegan’s Wake, pela música atonal ou pelo tachismo, é também porque tais obras representam mundos fechados, universos herméticos onde não é possível penetrar senão mediante a superação de enormes dificuldades, equiparáveis às provas iniciatórias das sociedades arcaicas e tradicionais. Tem-se, de um lado, o sentimento de uma “iniciação”, iniciação quase desaparecida do mundo moderno; por outro lado, proclama-se aos “outros” (i.e., às “massas”), que se pertence a uma minoria secreta; não mais a uma “aristocracia” (as elites modernas se orientam para a esquerda), mas a uma gnose, que tem o mérito de ser simultaneamente espiritual e secular, opondo-se tanto aos valores oficiais quanto às Igrejas tradicionais. Através do culto da originalidade extravagante, da dificuldade e da incompreensibilidade, as elites salientam o seu desligamento do universo banal de seus pais, enquanto se insurgem contra certas filosofias contemporâneas do desespero.

No fundo, a fascinação pela dificuldade, e mesmo pela incompreensibilidade das obras de arte, trai o desejo de descobrir um novo sentido, secreto, até então desconhecido, do Mundo e da existência humana. Sonha-se em ser “iniciado”, em chegar a compreender o sentido oculto de todas essas destruições de linguagens artísticas , de todas essas experiências “originais” que, à primeira vista, parecem nada mais ter em comum com a arte. Os cartazes dilacerados, as telas vazias, chamuscadas e retalhadas a faca, os “objetos de arte” que explodem durante o vernissage, os espetáculos improvisados onde os diálogos dos atores são decididos pela sorte, tudo isso deve ter uma significação, assim como certas palavras incompreensíveis do Finnegan’s Wake se revelam, para os iniciados, carregadas de múltiplos valores e de uma estranha beleza, quando se descobre que elas derivam de vocábulos neogregos ou svahili desfigurados por consoantes aberrantes e enriquecidos por alusões secretas a possíveis calembures, quando pronunciados rapidamente e em voz alta.

Certamente, todas as experiências revoluncionárias autênticas da arte moderna refletem certos aspectos da crise espiritual ou, simplesmente, da crise do conhecimento e da criação artística. O que nos interessa aqui, entretanto, é que as “elites” encontram na extravagância e ininteligibilidade das obras modernas, a possibilidade de uma gnose iniciatória. É um “novo mundo” que está sendo reconstruído a partir de ruínas e de enigmas, um mundo quase privado, que se gostaria de manter para si mesmo e para alguns raros iniciados. Mas é tal o prestígio da dificuldade e da incompreensibilidade, que o “público”, por sua vez, é rapidamente conquistado e proclama sua total adesão às descobertas da elite.

© Mircea Eliade – Mito e Realidade (excerto) – Perspectiva

Mircea Eliade – Mito e realidade

O QUE REVELAM OS MITOS

Os mitos, efetivamente, narram não apenas a origem do Mundo, dos animais, das plantas e do homem, mas também de todos os acontecimentos primordiais em consequência dos quais o homem se converteu no que é hoje — um ser mortal, sexuado, organizado em sociedade, obrigado a trabalhar para viver, e trabalhando de acordo com determinadas regras.

Um homem moderno poderia raciocinar do seguinte modo: eu sou o que sou hoje porque determinadas coisas se passaram comigo, mas esses acontecimentos só se tornaram possíveis porque a agricultura foi descoberta há uns oito ou nove mil anos e porque as civilizações urbanas se desenvolveram no antigo Oriente Próximo, porque Alexandre Magno conquistou a Ásia e Augusto fundou o Império Romano, porque Galileu e Newton revolucionaram a concepção do universo, abrindo o caminho para as descobertas científicas e preparando o advento da civilização industrial, porque houve a Revolução Francesa e porque as ideias de liberdade, democracia e justiça social abalaram os alicerces do mundo ocidental após as guerras napoleônicas, e assim por diante.

© Mircea Eliade – Mito e Realidade (excerto) – Perspectiva