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Giulio Carlo Argan – Arte Moderna

Giulio Carlo Argan

O ALCANCE SOCIAL DA NOVA ESTRUTURA ESPACIAL DEFINIDA POR CÉZANNE

Mas como conciliar a atualidade de Cézanne com sua aparente indiferença pelos problemas sociais típicos de sua época? Encerrado em seu estúdio, distante do mundo, ele pensa apenas na pintura, não lhe aflora a suspeita de que seja possível isolar um problema social dentro do problema geral da realidade.

Numa das obras mais tardias e grandiosas, a última das várias imagens do Monte Sainte-Victoire, vê-se o grau de lucidez estrutural a que chegou o mestre. É esta, sem dúvida, uma das obras mais “especulativas” ou “ontológicas” de Cézanne, ponto de chegada de sua pesquisa dirigida à compreensão global do ser e de sua estrutura vital: mas pode-se negar que esta “filosofia” pura seja pura pintura? E poder-se-ia porventura censurar um artista empenhado nesse problema total, disposto a demonstrar que, se o contato direto com o mundo é pensamento, o pensamento também é contato direto com o mundo, por não ter considerado tal ou qual problema particular de sua época, mesmo se tratando da guerra franco-prussiana ou da Comuna?

De qualquer maneira, Cézanne enfrentou implicitamente o problema social, como problema central da época, ao definir não só a função, mas também o dever do artista no mundo, e naquele tipo de mundo. O “problema do quadro”, seu problema de representar a natureza, a sociedade ou a vida interior e secreta do artista, é o problema central da pintura oitocentista, não sendo senão o problema, cada vez mais premente devido à afirmação do pragmatismo industrial e capitalista, referente à razão de ser e à possibilidade de ação do artista nesse tipo de sociedade. Tal problema não se resolveria com reações psicológicas, sentimentais, práticas, optando por este ou aquele, representando os camponeses no trabalho ou os senhores a passeio no Bois de Boulogne.

A solução positiva é a de Cézanne; e isso porque Cézanne viu na abertura impressionista, que a Van Gogh se afigurara como o limite extremo do Romantismo, a perspectiva de um novo classicismo, a premissa de uma relação nova, não mais contraditória, não mais angustiada, entre o homem e o mundo. Perguntar sobre o alcance social da nova estrutura espacial definida por Cézanne é o mesmo que perguntar sobre o alcance social do novo estruturalismo arquitetônico com que os técnicos do ferro e do cimento definiram o processo pelo qual a sociedade moderna constrói seu espaço, a dimensão de sua existência; e devemos insistir uma vez mais sobre o paralelismo, se não a analogia, entre os dois fenômenos.

© Giulio Carlo Argan – Arte moderna (excerto adaptado) – Companhia das Letras

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Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas

CULTURA E FEMINISMO

Tem gente que diz que a mulher é subordinada ao homem porque isso faz parte da nossa cultura. Mas a cultura está sempre em transformação. Tenho duas sobrinhas gêmeas e lindas de quinze anos. Se tivessem nascido há cem anos, teriam sido assassinadas: há cem anos, a cultura Igbo considerava o nascimento de gêmeos como um mau presságio. Hoje essa prática é impensável para nós.

Para que serve a cultura? A cultura funciona, afinal de contas, para preservar e dar continuidade a um povo. Na minha família, eu sou a filha que mais se interessa pela história de quem somos, nossas terras ancestrais, nossas tradições. Meus irmãos não têm tanto interesse nisso. Mas não posso ter voz ativa, porque a cultura Igbo favorece os homens e só eles podem participar das reuniões em que as decisões familiares mais importantes são tomadas. Então, apesar de ser a pessoa mais ligada a esses assuntos, não posso frequentar reuniões. Não tenho direito a voz. Porque sou mulher.

A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

© Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas – Companhia das Letras

Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas

POR QUE USAR A PALAVRA FEMINISTA?

Algumas pessoas me perguntam: “Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?”. Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é o ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato.

Alguns homens se sentem ameaçados pela ideia de feminismo. Acredito que essa ameaça tenha origem na insegurança que eles sentem. Como foram criados de um determinado modo, quando não estiverem “naturalmente” dominando, como homens, a situação, sentirão a autoestima diminuída. Outros talvez enfrentem a palavra “feminismo” da seguinte maneira: “Tudo bem, isso é interessante, mas não é meu modo de pensar. Aliás, eu nem sequer penso na questão de gênero”.

Talvez não pensem mesmo. E isso é parte do problema: os homens não pensam na questão do gênero, nem notam que ela existe.

© Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas – Companhia das Letras

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

SOBRE MÉTODOS DE CONTAGEM II

Lembre-se de que, além da capacidade universal humana de representar conjuntos de indivíduos, as pessoas conseguem acompanhar números exatos pequenos (até três ou quatro), e também conseguem estimar quantidades bem maiores, embora apenas de forma aproximada (esse era o sistema numérico por analogia documentado por Dehaene e Spelke em seu estudo com bilíngues e imagens do cérebro). Esses dois componentes da noção de número estão presentes em bebês e em macacos, e evidentemente em todas as sociedades humanas. Sistemas mais sofisticados capazes de contabilizar números exatos maiores aparecem mais tarde, tanto na história quanto no desenvolvimento infantil. Eles tendem a ser inventados quando uma sociedade desenvolve a agricultura, gera grandes quantidades de objetos indistinguíveis e precisa rastrear suas magnitudes exatas, em especial quando eles são negociados ou taxados.
[…]
Não é que seja impossível determinado tipo de linguagem se dissociar de determinado tipo de sociedade, circunstância que faria com que a hipótese whorfiana fosse por princípio impossível de pôr à prova. As línguas evoluem e divergem sob vários aspectos por causa da dinâmica interna de pronúncia e gramática e dos caprichos da história. Por essas razões, sociedades semelhantes podem ter tipos diferentes de idioma, como o húngaro e o tcheco ou o hebraico e o inglês. Para que o Determinismo Linguístico seja verdadeiro, essas diferenças tipológicas, sozinhas — e não nenhuma diferença correlacionada no tipo de sociedade —, teriam de canalizar os pensamentos das respectivas sociedades e falantes para direções diferentes. No exemplo que temos à mão, teria de haver povos impedidos de desenvolver o conjunto de práticas culturais que inclui contar por causa do acidente histórico de que sua língua por acaso não possuía palavras para números, enquanto povos semelhantes, que tiveram a sorte de falar uma língua com palavras para números, decolaram para a sofisticação matemática. No mundo real, a história mostra que, quando as sociedades ficam mais organizadas e complexas, seja por si sós ou sob a pressão de vizinhos, rapidamente desenvolvem ou tomam emprestado um sistema de contagem, independentemente do seu tipo de língua.

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento (excerto) – Companhia das Letras

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

SOBRE MÉTODOS DE CONTAGEM I

A alegação mais descarada do Determinismo Linguístico nos últimos anos é o estudo de Peter Gordon sobre a noção de números num povo amazônico. Como já lemos, Gordon defendeu a “versão mais forte” da hipótese whorfiana, e foi assim que o estudo foi descrito pela imprensa em 2004. A tribo pirahã, do Brasil, como muitos outros povos caçadores e coletores,  conta apenas com três palavras para números, que significam “um”, “dois” e “muitos”. Mesmo essas são usadas de forma imprecisa, mais ou menos como a expressão em inglês a couple, que tecnicamente se refere a dois, mas que é  muitas vezes usada para outros números pequenos.
[…]
Antigamente, eu ficava estupefato com a prevalência de sistemas de contagem “um, dois, muitos” entre povos iletrados, até que perguntei ao antropólogo Napoleon Chagnon (que tinha estudado outra tribo amazônica, os ianomâmis) como eles surgem. Ele disse que em seu dia-a-dia os ianomâmis não precisam de números exatos porque seguem os objetos como indivíduos, um por um. Um caçador, por exemplo, reconhece cada uma de suas flechas e, portanto, sabe se uma está faltando sem ter de contá-las. É o mesmo costume mental que faria a maioria de nós ter de parar para pensar se alguém nos perguntasse quantos primos de primeiro grau temos, ou quantos eletrodomésticos temos na cozinha, ou quantos orifícios temos na cabeça.

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento – Companhia das Letras

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

SOBRE DEBATES INTELECTUAIS E GARRAFAS DE VINHO

Qualquer pessoa que participe de debates intelectuais passa a reconhecer as táticas, as tramas e os truques sujos que os debatedores usam para confundir o público quanto os fatos e a lógica não estão a seu favor. Há o apelo à autoridade (“Spaulding diz isso, e ele tem um Prêmio Nobel”), a atribuição de motivos (“Firefly só está querendo chamar a atenção e conseguir dinheiro”), xingamentos (“A teoria de Driftwood é racista”) e a difamação por associação (“A Hackenbush é financiada por uma fundação que já financiou nazistas”). Talvez a mais conhecida seja a montagem e a destruição de um espantalho, um estratagema tão versátil que às vezes fica difícil imaginar como a vida intelectual sobreviveria sem ele.

A beleza do espantalho é que ele pode ser usado de inúmeras maneiras. A mais trivial é a luta de boxe com o espantalho, em que se substitui um oponente formidável por um simplório facilmente derrotável. Mas existe também o espantalho bifásico: primeiro monte a efígie, depois admita que afinal ela não é tão irreal assim, mas arme essa admissão como uma capitulação a suas críticas devastadoras. E há também o  espantalho do sacrifício, útil quando se teme estar nas beiradas da respeitabilidade: monte uma versão fanática da teoria de alguém, depois se distancie dela para comprovar sua moderação. É a mesma estratégia que os vendedores de vinho usam quando põem uma garrafa de preço exorbitante em cada prateleira. Eles sabem que compradores inseguros gravitam para a média, portanto, se houver uma garrafa de cem dólares à mostra, eles vão comprar a de trinta dólares, ao passo que, se a garrafa mais cara custasse trinta dólares, eles se contentariam gastando dez.

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento – Companhia das Letras

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

Caro Amigo Branco
Quando nasço sou preto
Quando cresço sou preto
Quando adoeço sou preto
Quando saio no sol sou preto
Quando tenho frio sou preto
Quando tenho medo sou preto
E quando morro sou preto.

Mas você, amigo branco
Quando nasce é rosa
Quando cresce é branco
Quando adoece fica verde
Quando sai no sol fica vermelho
Quando tem frio fica azul
Quando tem medo amarela
E quando morre é cinza
E tem a cara-de-pau de dizer que eu é que sou de cor?

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento – Companhia das Letras – poema passado a Steven Pinker por Saroja Subbiah, e que circulou entre os funcionários maoris em um prédio do governo neozelandês. Da polissemia das palavras para cores.