Category Archives: TENTÁCULO VIII – Sociologia

Fine & Saad-Filho – Marx’s ‘Capital’

Karl Marx

THE WORKER AND THE MECHANISATION

Through the process of mechanisation, labour fragmentation and capitalist control, the factory system tends to transform the independent artisans and skilled craftspeople into appendages of the machines that they are payed to operate – the factory workers are minders of alien fixed capital. Marx calls this the real subordination of labour to capital. The detailed co-operation of labour within the factory contrasts sharply with the finer division by workers’ tasks that accompanies specialisation. The real detailed co-operation of labour within the factory contrasts sharply with the finer division by workers’ tasks that accompanies specialisation. The real subordination of labour marks the beginning of capitalist production proper, based on the extraction of relative surplus value. These are the economic battering rams with which capitalism can defeat other forms of production on the basis of its superior efficiency. Simultaneously, outside the factory, towns become rapidly growing industrial centres, disrupting every relation between town and country, while life itself is revolutionised by the diffusion of capitalist methods of production throughout the economy and across the entire world.

© Ben Fine & Alfredo Saad-Filho – Marx’s ‘Capital’ – PlutoPress

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Fine & Saad-Filho – Marx’s ‘Capital’

Karl Marx

WORKER AS SLAVE

To distinguish the workers themselves from their ability or capacity to work, Marx called the latter labour power, and its performance or application labour. These concepts are important but often misunderstood. The most important distinguishing feature of capitalism is that labour power becomes a commodity. The capitalist is the purchaser, the worker is the seller, and the price of labour power is the wage. The worker sells labour power to the capitalist, who determines how that labour power should be exercised as labour to produce particular commodities. As a commodity, labour power has a use value, which is the creation of other use values. This property is independent of the particular society in which production takes place. However, in capitalist societies use values are produced for sale and, as such, embody abstract labour time or value. In these societies, the commodity labour power also has the specific use value that is the source of value when exercised as labour. In this, labour power is unique.

The worker is not therefore a slave in the conventional sense of the word and sold like other commodities, but owns and sells labour power. Also, the length of time for which the sale is made or formally contracted is often very short (one week, one month, or sometimes only until a specific task has been completed). Yet in many other respects the worker is like a slave. The worker has little or no control over the labour process or product. There is the freedom to refuse to sell labour power, but this is a partial freedom, the alternative in the limit being starvation or social degradation. One could as well argue that a slave could flee or refuse to work, although the level and immediacy of retribution are of a different order altogether. For these reasons the workers under capitalism have been described as wage slaves, although the term is an oxymoron. You cannot be both slave and wage worker – by definition, the slave does not have the freedoms that the wage worker must enjoy, irrespective of other conditions.

On the other side to the class of workers are the capitalists, who control the workers and the product of labour through their command of wage payments and ownership of the tools and raw materials, or means of production. This is the key to the property relations specific to capitalism. For the capitalist monopoly of the means of production ties the workers to the wage relation, explained above. If the workers owned or were entitled to use the means of production independently of the wage contract, there would be no need to sell labour power rather than the product on the market and, therefore, no need to submit to capitalist control in society, both during production and outside it.

© Ben Fine & Alfredo Saad-Filho – Marx’s ‘Capital’ – PlutoPress

Fine & Saad-Filho – Marx’s ‘Capital’

Karl Marx

MARX’S PHILOSOPHY

The Hegelians believed that intellectual progress explains the advance of government, culture and the other forms of social life. Therefore, the study of consciousness is the key to the understanding of society, and history is a dramatic stage on which institutions and ideas battle for hegemony. In this ever-present conflict, each stage of development contains the seeds of its own transformation into a higher stage. Each stage is an advance on those that have preceded it, but it absorbs and transforms elements from them. This process of change, in which new ideas do not so much defeat the old as resolve conflicts or contradictions within them, Hegel called the dialectic.

Human consciousness is critical in Marx’s thought, but it can only be understood in relation to historical, social and material circumstances. In this way, Marx establishes a close relationship between dialectics and history, which would become a cornerstone of his own method. Consciousness is primarily determined by material conditions, but these themselves evolve dialectically through human history.

© Ben Fine & Alfredo Saad-Filho – Marx’s ‘Capital’ – PlutoPress

Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas

CULTURA E FEMINISMO

Tem gente que diz que a mulher é subordinada ao homem porque isso faz parte da nossa cultura. Mas a cultura está sempre em transformação. Tenho duas sobrinhas gêmeas e lindas de quinze anos. Se tivessem nascido há cem anos, teriam sido assassinadas: há cem anos, a cultura Igbo considerava o nascimento de gêmeos como um mau presságio. Hoje essa prática é impensável para nós.

Para que serve a cultura? A cultura funciona, afinal de contas, para preservar e dar continuidade a um povo. Na minha família, eu sou a filha que mais se interessa pela história de quem somos, nossas terras ancestrais, nossas tradições. Meus irmãos não têm tanto interesse nisso. Mas não posso ter voz ativa, porque a cultura Igbo favorece os homens e só eles podem participar das reuniões em que as decisões familiares mais importantes são tomadas. Então, apesar de ser a pessoa mais ligada a esses assuntos, não posso frequentar reuniões. Não tenho direito a voz. Porque sou mulher.

A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

© Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas – Companhia das Letras

Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas

POR QUE USAR A PALAVRA FEMINISTA?

Algumas pessoas me perguntam: “Por que usar a palavra ‘feminista’? Por que não dizer que você acredita nos direitos humanos, ou algo parecido?”. Porque seria desonesto. O feminismo faz, obviamente, parte dos direitos humanos de uma forma geral — mas escolher uma expressão vaga como “direitos humanos” é negar a especificidade e particularidade do problema de gênero. Seria uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo dos séculos. Seria negar que a questão de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é o ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino. Por séculos, os seres humanos eram divididos em dois grupos, um dos quais excluía e oprimia o outro. É no mínimo justo que a solução para esse problema esteja no reconhecimento desse fato.

Alguns homens se sentem ameaçados pela ideia de feminismo. Acredito que essa ameaça tenha origem na insegurança que eles sentem. Como foram criados de um determinado modo, quando não estiverem “naturalmente” dominando, como homens, a situação, sentirão a autoestima diminuída. Outros talvez enfrentem a palavra “feminismo” da seguinte maneira: “Tudo bem, isso é interessante, mas não é meu modo de pensar. Aliás, eu nem sequer penso na questão de gênero”.

Talvez não pensem mesmo. E isso é parte do problema: os homens não pensam na questão do gênero, nem notam que ela existe.

© Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas – Companhia das Letras

J.-D. Nasio – Por que repetimos os mesmos erros

AMOR COMO RESULTADO

Para fechar nossas considerações sobre identidade e repetição, não posso deixar de expor-lhes uma espantosa confidência de Descartes, na qual ele confirma nossa tese quanto à afeição inconsciente a um traço: amamos nosso amado não pelo que ele é, mas por ele ser portador de um traço que o torna desejável a nossos olhos. Agora escutemos o filósofo revelando seu segredo: “Quando eu era criança, gostava de uma garota da minha idade que era vesga. Quando eu via seus olhos esbugalhados, sentia fervilhar a paixão do amor. Mais tarde, durante muito tempo, vendo as pessoas vesgas, sentia-me mais inclinado a apreciá-las do que outras, só porque tinham esse defeito; e, contudo, não sabia ser esta a razão. Assim, quando somos impelidos a gostar de alguém, sem que saibamos a causa, sabemos que isso resulta do fato de existir alguma coisa nele semelhante ao que existiu num outro objeto que amamos antes, ainda que não saibamos o que é“. (Carta a Chanut de 6 de junho de 1647).

© J. -D. Nasio – Por que repetimos os mesmos erros (excerto) – Zahar

J.-D. Nasio – Por que repetimos os mesmos erros

PERSEVERAR NO SER

Podemos estipular um objetivo para a repetição? Ou ela teria um objetivo predeterminado? Há um filósofo que os permite responder claramente a essa pergunta. Na Ética (Terceira parte), Spinoza tenta reduzir toda a vida a uma única tendência fundamental, a tendência de todo ser a “perseverar no ser”. Fico sempre fascinado diante dessa sentença tão poderosa, que, em três palavras, diz o que é a vida. Inúmeros filósofos e homens de ciência tentaram definir a vida. Alguns, por exemplo, afirmaram ser o “conjunto das funções que resistem à morte”; outros, “o que podemos abolir”; e outros ainda, “o que se desgasta e produz dejetos”. Trata-se de definições que, sem exceção, apontam no fim a natureza perecível da vida. Spinoza, por sua vez, adota posição oposta. Ele enfatiza sobretudo a força expansiva da vida, o impulso que se preserva sem enfraquecer e triunfa sobre todos os obstáculos. Conforme afirma: “A vida é a força que faz perseverar as coisas em seu ser”. Todo ser, exclusivamente pelo fato de existir, tende a continuar a existir e se esforçará por todos os meios possíveis para perseverar no seu ser. Ao escrever este livro, o que faço senão perseverar no meu ser? Nossa existência é um plebiscito, a cada instante, de nosso desejo de viver. Todo dia, ao nos levantarmos e nos dedicarmos a nossos afazeres, implicitamente, dizemos sim à vida. Entretanto, ignoro até quando renovarei minha afirmação cotidiana de viver. Meu corpo é que decidirá isso, e, por trás dele, meu inconsciente. No momento, perante meus dois senhores – meu corpo e meu inconsciente -, recolho-me à minha insignificância e limito-me a perseverar no meu ser. Escrevo estas páginas hoje, escreverei outras amanhã e, enquanto meus senhores me ampararem, perseverarei no meu ser, prosseguirei minha marcha.

© J. -D. Nasio – Por que repetimos os mesmos erros (excerto) – Zahar