Category Archives: TENTÁCULO VI – Poesia

Maurice Merleau-Ponty – O Olho e o Espírito

HOMEM, ESPELHO E CACHIMBO

Schilder observa que, ao fumar cachimbo diante do espelho, sinto a superfície lisa e ardente da madeira não só onde estão meus dedos, mas também naqueles dedos gloriosos, naqueles dedos apenas visíveis que estão no fundo do espelho. O fantasma do espelho puxa para fora minha carne, e ao mesmo tempo todo o invisível de meu corpo pode investir os outros corpos que vejo. Doravante meu corpo pode comportar segmentos tomados do corpo dos outros assim como minha substância passa para eles, o homem é espelho para o homem. Quanto ao espelho, ele é o instrumento de uma universal magia que transforma as coisas em espetáculos, os espetáculos em coisas, eu em outrem e outrem em mim.

© Maurice Merleau-Ponty – O Olho e o Espírito – II – Cosac Naify

Maurice Merleau-Ponty – O Olho e o Espírito

O OLHO E O ESPÍRITO

Diremos então que há um olhar dentro, um terceiro olho que vê os quadros e mesmo as imagens mentais, como se falou de um terceiro ouvido que capta as mensagens de fora através do rumor que suscitam em nós? Pra quê? Toda a questão é compreender que nossos olhos já são muito mais que receptores para as luzes, as cores e as linhas: computadores do mundo que têm o dom do visível, como se diz que o homem inspirado tem o dom das línguas. Claro que esse dom se conquista pelo exercício, e não é em alguns meses, não tampouco na solidão que um pintor entra em posse de sua visão. A questão não é essa: precoce ou tardia, espontânea ou formada no museu, sua visão em todo caso só aprende vendo, só aprende por si mesma. O olho vê o mundo, e o que falta ao mundo para ser quadro, e o que falta ao quadro para ser ele próprio, e, na paleta, a cor que o quadro espera; e vê, uma vez feito, o quadro que responde a todas essas faltas, e vê os quadros dos outros, as respostas outras a outras faltas. Não se pode fazer um inventário limitativo do visível como tampouco dos usos possíveis de uma língua ou somente de seu vocabulário e de suas frases. Instrumento que se move por si mesmo, meio que inventa seus fins, o olho é aquilo que foi sensibilizado por um certo impacto do mundo e o restitui ao visível pelos traços da mão. Não importa a civilização em que surja, e as crenças, os motivos, os pensamentos, as cerimônias que a envolvam, e ainda que pareça votada a outra coisa, de Lascaux até hoje, pura ou impura, figurativa ou não, a pintura jamais celebra outro enigma senão o da visibilidade.

© Maurice Merleau-Ponty – O Olho e o Espírito – II – Cosac Naify

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

Caro Amigo Branco
Quando nasço sou preto
Quando cresço sou preto
Quando adoeço sou preto
Quando saio no sol sou preto
Quando tenho frio sou preto
Quando tenho medo sou preto
E quando morro sou preto.

Mas você, amigo branco
Quando nasce é rosa
Quando cresce é branco
Quando adoece fica verde
Quando sai no sol fica vermelho
Quando tem frio fica azul
Quando tem medo amarela
E quando morre é cinza
E tem a cara-de-pau de dizer que eu é que sou de cor?

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento – Companhia das Letras – poema passado a Steven Pinker por Saroja Subbiah, e que circulou entre os funcionários maoris em um prédio do governo neozelandês. Da polissemia das palavras para cores.

Edgar Allan Poe – A Dream Whitin A Dream

Take this kiss upon the brow!
And, in parting from you now,
Thus much let me avow–
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if Hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream.

I stand amid the roar
Of a surf-tormented shore,
And I hold whitin my hand
Grains of the golden sand–
How few! yet how they creep
Through my fingers to the deep,
While I weeo – while I weep!
O God! can I not grasp
Them with a tighter clasp?
O God! can I not save
One from the pitiless wave?
Is all that we see or seem
But a dream within a dream?

© Edgar Allan Poe – Complete Tales and Poems – A Dream Within a Dream (na totalidade) – Fall River