Category Archives: TENTÁCULO V – Religião

Carlo Ginzburg – O Queijo e os Vermes

O PAPEL DA IMPRENSA NO ACESSO À INFORMAÇÃO

Nos discursos de Menocchio, portanto, vemos emergir, como que por uma fenda no terreno, um estrato cultural profundo, tão pouco comum que se torna quase incompreensível. Esse caso, diferentemente dos outros examinados até aqui, envolve não só uma reação filtrada pela página escrita, mas também um resíduo irredutível de cultura oral. Para que essa cultura diversa pudesse vir à luz, foram necessárias a Reforma e a difusão da imprensa. Graças à primeira, um simples moleiro pôde pensar em tomar a palavra e expor suas próprias opiniões sobre a Igreja e sobre o mundo. Graças à segunda, tivera palavras à sua disposição para exprimir a obscura, inarticulada visão de mundo que fervilhava dentro dele. Nas frases ou nos arremedos de frases arrancadas dos livros, encontrou os instrumentos para formular e defender suas próprias ideias durante anos, com seus conterrâneos num primeiro momento, e, depois, contra os juízes armados de doutrina e poder.

O desejo de “procurar coisas maiores”, que confessara de maneira vaga doze anos antes perante o inquisidor de Portogruaro, continuava a parecer-lhe não só legítimo, como potencialmente ao alcance de todos. Ilegítima, ou melhor, absurda devia lhe parecer, ao contrário, a pretensão dos clérigos em manter o monopólio de um conhecimento que podia ser comprado por “dois soldos” nas banquinhas de livreiros em Veneza. A ideia da cultura como privilégio fora gravemente ferida (com certeza não eliminada) pela invenção da imprensa.

© Carlo Ginzburg – O Queijo e os Vermes (excerto adaptado) – Companhia das Letras

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Mircea Eliade – História das Crenças e das Ideias Religiosas

AS CONSEQUÊNCIAS DO SACRIFÍCIO PRIMORDIAL

Por razões ignoradas, os deuses e os homens decidiram separar-se amigavelmente em Mecone. Os homens ofereceram o primeiro sacrifício, a fim de fixar de maneira definitiva suas relações com os deuses. E foi nessa oportunidade que Prometeu interveio pela primeira vez. Sacrificou um boi e dividiu-o em duas partes. Mas, como queria proteger os homens e ao mesmo tempo iludir Zeus, revestiu os ossos com uma camada de gordura, cobrindo com o estômago a carne e as vísceras. Atraído pela gordura, Zeus escolheu para os deuses a porção mais pobre, deixando para os homens a carne e as vísceras. É por isso, explica Hesíodo, que desde então os homens queimam os ossos em oferenda aos deuses imortais.
Essa partilha singular teve consequências consideráveis para a humanidade. Era, por um lado, a instituição do regime carnívoro como um ato religioso exemplar, suprema homenagem prestada aos deuses; mas em última instância, isso implicava o abandono da alimentação vegetariana praticada durante a idade de ouro. Por outro lado, a trapaça de Prometeu fez com que Zeus se irritasse contra os seres humanos, e lhes retirasse o uso do fogo. Mas o astuto Prometeu trouxe o fogo até o céu, ocultando-o no oco de uma férula. Enervado, Zeus decidiu punir de uma só vez os homens e seu protetor. Prometeu foi acorrentado, e uma águia passou a devorar-lhe, todos os dias, o “fígado imortal”, que se recompunha durante a noite. Um dia ele será libertado por Héracles, filho de Zeus, a fim de que a glória do herói aumente ainda mais.
Quanto aos seres humanos, Zeus enviou-lhes a mulher, essa “bela calamidade”, sob a forma de Pandora. “Armadilha profunda e sem saída destinada aos homens”, tal como a denuncia Hesíodo; “pois foi dela que proveio a raça, a corja perniciosa das mulheres, terrível flagelo instalado entre os homens mortais”.
Em suma, longe de ser um benfeitor da humanidade, Prometeu é o responsável pela sua atual decadência. Em Mecone ele provocou a separação definitiva entre deuses e homens. Mais tarde, ao furtar o fogo, irritou Zeus, suscitando assim a intervenção de Pandora, isto é, o aparecimento da mulher e, por conseguinte, a propagação de todas as espécies de tormentos, atribulações e infortúnios. Para Hesíodo, o mito de Prometeu explica a irrupção do “mal” no mundo; em última análise, o “mal” representa a vingança de Zeus.

© Mircea Eliade – História das Crenças e das Ideias Religiosas – Volume I (excerto) – Zahar

Mircea Eliade – História das Crenças e das Ideias Religiosas

OS OLÍMPICOS E OS HERÓIS: A DEUSA ATENA

[…]
Na verdade, a mêtis, a inteligência prática, é seu atributo mais característico. Atena não é apenas a padroeira dos ofícios femininos por excelência, como o fiar e o tecer. Ela é sobretudo a “politécnica”, a inspiradora e instrutora de todos os gêneros de operários especialistas. É com ela que o ferreiro aprende a fabricar a relha do arado, e os oleiros a invocam: “Vem até nós, Atena, coloca a tua mão em cima do nosso forno!” É ela, a domadora de cavalos, que inventa o freio dos equinos e ensina o uso dos carros. Quando o assunto é navegação, domínio governado de direito por Posídon, Atena revela a complexidade e ao mesmo tempo a unidade da sua mêtis. A princípio, ela intervém nas múltiplas operações técnicas próprias da construção de um navio, mas auxilia também o piloto a “levar a bom termo” seu barco.
Raramente se encontra um exemplo daquilo que se poderia denominar a sacralidade da invenção técnica e a mitologia da inteligência. Outras divindades ilustram as incontáveis formas da sacralidade da vida, da fertilidade, da morte, das instituições sociais etc. Atena revela o caráter “sagrado”, ou a origem “divina”, de determinados ofícios e vocações que implicam inteligência, habilidade técnica, invenção prática, além de autocontrole, serenidade nas provas, confiança na coerência, e portanto na inteligibilidade, do mundo. Compreende-se como a padroeira da mêtis se tornará, na época dos filósofos, o símbolo da ciência divina e da sabedoria dos homens.

© Mircea Eliade – História das Crenças e das Ideias Religiosas – Volume I (excerto) – Zahar

Mircea Eliade – História das Crenças e das Ideias Religiosas

DICOTOMIA SEXUAL

[…]
Pois o homem é o produto final de uma decisão tomada “no começo do tempo”: a de matar para poder viver.
De fato, os homínidas conseguiram superar os seus “ancestrais” transformando-se em carnívoros. Durante dois milhões de anos, aproximadamente, os paleantropídeos viveram da caça; os frutos, as raízes, os moluscos etc., recolhidos por mulheres e crianças, eram insuficientes para assegurar a sobrevivência da especie. A caça determinou a divisão do trabalho de acordo com o sexo, reforçando assim a “hominização”; entre os carnívoros, e em todo o mundo animal, essa diferença não existe.

© Mircea Eliade – História das Crenças e das Ideias Religiosas – Volume I (excerto) – Zahar