Category Archives: TENTÁCULO IV – Próprios

Záruby

Trstín, Eslováquia, Janeiro de 2016

Tudo é vazio, a cidade é fantasma.
A menos de um posto de gasolina em meio ao mato e neve. É eu comprando comida pra tentativa de descoberta. Montanha e neve, língua estranha, preciso terminar de me preparar, nada ali é meu, tudo aqui sou eu.
Grampos nas botas, câmera na mão, mapa e bússola. Quem mais sabe que eu to aqui fazendo isso?

No branco da paisagem o som é cor, vejo pelos ouvidos. O tilintar pesado dos grampos em barulho de armadura faz-me protegido. Sou guerreiro indo pro topo, dentro do ferro que é casca tem corpo de gente que morre e se perde no clima novo. Não tem o que dar errado.
É passo com passo, passo pesado. É peso de som pra carregar: roupa de frio, bota, notícia de que deu tudo certo. Mais do que isso, é vida, é sobrevivência, como vai ser?

No primeiro cavalete que me separa do início da trilha em neve, são pegadas anteriores que me guiam.
É pegada, é bússola, é mapa, é GPS, é curva de nível: é montanha acima, pelo caminho de menor declividade. Sou eu e os instrumentos que vão me levar até lá.

As paisagens são novas, o caminho não existe. Tudo foi coberto pelo mar etéreo de água congelada. Tudo venta, tudo muda, tudo apaga pegada e me faz temer que apague os traços que eu vinha deixando pelo caminho. Sou eu e pegada, eu olhando pra trás, eu descobrindo os novos sinais nas árvores que também passaram a me guiar. É pegada, caminho de menor declividade, GPS e sinais nas árvores.

O branco é inteiro, a neve é tudo, nada é o que eu sei. É tudo barulho sobre branco. É retorcer de galho congelado, é barulho borrachento de tronco com tronco e gelo, é neve e vento. É o GPS desligando e é isso. É neve caindo de novo do céu.
____________ É neve caindo do céu.
____________ Que não pode cair.
Porque se cair, e as pegadas?

As pegadas apagam. É eu, pegada e marca na árvore. É curva de nível, plano de menor declividade. É nada, é eu sozinho no meio do nada, na Eslováquia.
Cadê os que eu amo? Por que colocar minha vida ali? Sou humano, instrumento, sou orgânico. Sou vida que continua sob auxílio de aparelhos naquela sala branca de hospital. Não é pra mim, foi demais. Minha fraqueza é maior que montanha.

Sou eu desistindo.

Sou agora eu e música. Sou eu e pegada, de costas pro topo.
Tudo o que vinha atrás era eu. Sou eu e minhas pegadas, meu caminho, meu trajeto, tudo ali é minha casa. Conheço tudo isso, não me dá mais medo.
Sou eu, montanha e neve em pacto de pegada. Tudo o que ando foi branco, tudo que piso é psique, tudo que vejo é quintal.

Sou GPS ligando. Sou eu a dezesseis minutos do topo. Sou eu e minha  m e n t e  que me toma por mim. Sou eu livre de aparelhos. Sou eu, mente e montanha. Numa sala de casa, andando por tudo o que é branco e claro. Tudo o que é barulho de vida.

Vou correndo, vou música, vou todo subindo, vou notícia de que deu tudo certo. Vou de passo, vou de quatro, de joelho, rumo ao topo do altar em agradecer pela vida. Cada nova placa, cada nova marca nas árvores brancas me faz continuar com mais força, me faz lacrimejar, me faz tremer. Sou eu, mente, montanha e força.

Sou eu e topo.
Sou eu em explosão e implosão. Sou eu dedicando toda a força do caminho à chegada, de joelhos, de lágrimas, de músculo retesado de sentimento. Sou eu de obrigado, de muito obrigado.

Sou eu e sol, que chega no topo da montanha junto comigo. Eu e calor
de insolação
de branco
de movimento
de subida
de paz em tons claros.

Sou mala no chão, tudo na neve. Sou grito!
Choro, tremedeira, sorriso.
Sou eu abrindo as janelas da mente pro sol entrar.

É neve em movimento. Gelo, estalactite, vento.
A mala volta pras costas, com tudo dentro. Sou eu e montanha.
Eu e sol, eu e neve, eu e árvore, eu e vento. Nada é meu, tudo sou eu.
Sou montanha, sou neve, sou barulho, sou leve.
Sou sorriso, sou narciso, sou tudo e tudo aquilo que piso.
Sou lobo, sou topo, sou tudo isso, sou louco

em amor de viver.

15 de Janeiro de 2016, num avião entre Roma e Manchester

Engenharia Psicanalítica

Paremos de procurar soluções-fim a um começo e meio tão humanos, tão subjetivos e tão movidos por visões tão pessoais.

Mesmo que pudéssemos, o que faz-nos achar tão onipotentes a ponto de só com base no discurso tão enviesado do outro querermos conseguir encontrar a solução ela? E não propagar um discurso pessoal de semi-ódio e talvez passageiro?


Paremos de encarar questões humanas como problemas de engenharia!

Pessoas não buscam outras pessoas pra conversar sob a simples motivação de querer encontrar a solução de um problema. Pessoas buscam pessoas, que as ajudem a tirar um peso ou compartilhem de suas felicidades. E que melhor maneira de fazer isso que mostrar conhecimento, vontade e inclinação pelo que o outro tem a dizer? E que melhor maneira de contribuir ao autoconhecimento do outro que não indagando sobre tudo o que o outro já sabe sobre si mesmo? E que tal maiêutica?

Quando alguém lhe trouxer uma situação-problema, o método científico não resolve. O método socrático, sim: ouça, pergunte, conheça, e quem vai encontrar o conhecimento é o próprio outro, e não você.


Autoconheça-o!

© Lucas Gobatti

Da essência do pensamento humanístico (ou sobre dar forma ao mundo)

Andando num jardim de gramas baixas, com caminhos de concreto que entrecortavam os campos, os limites da minha visão fazem surgir e esvanecer novos elementos da paisagem, concedendo movimento ao que outrera estático.

Em meio a um vendaval de pensamentos leves, dou de cara com um cruzamento perpendicular entre dois destes caminhos, formando uma quina.

No mesmo momento também se cruzam os elementos de um paradigma que me persegue há anos. Junto ao cruzamento de concretos, no quadrante onde só deveria haver grama, houve um desgaste impresso pelas pegadas inúmeras que ali já passaram e levaram consigo o que deveria ser uma junção perfeita entre homem e natureza: nesse pedaço de terra exposta, também se expunham algumas das minhas conjecturas-sem-saída sobre o pensamento humano.

Já ouvi muita argumentação sobre coisa parecida, mas acho que vou levar essa discussão pelo lado minimalista. Não troquemos causa por consequência: nós podemos dar forma ao mundo! Não precisamos aceitar tudo o que está embaixo dos nossos pés. Aquela terra exposta é fruto de vontade inata de simplificar as coisas.

© Lucas Gobatti

Tsunami Pinheiros

Sobre a greve dos ônibus em São Paulo e bolhas em correnteza sob tsunamis.

Tilintar periódico das rodas metálicas sobre os trilhos de aço; o barulho característico do vento sendo expulso do túnel pela frente do trem e o barulho característico do vento sendo sugado ao túnel pela traseira do trem; as faces e expressões típicas de um dia em São Paulo e um dia atípico em São Paulo; os anúncios periódicos da companhia aos passageiros e os passageiros desavisados; a correria pra entrar no vagão e a correria que se revela nos pequenos gestos presos dentro do carro do metrô; os esbarrões desimportantes, os desrespeitos enrustidos:

os fones de ouvido intra-auriculares transformando tudo isso em ruído de fundo sinestésico. Eu na minha própria bolha, que demorei a construir, indo naquela correnteza. Correnteza de rede subterrânea, de pressa paulistana, de roda sobre trilhos e trilhos sob rodas.

Pois é que anunciam: “Estação: Pinheiros. Acesso à linh”eeu vendo aquela fúria de bolsas de trabalho, de paletó e gravata, boné de obra, enfurecida a passar pelas portas e finalmente conseguir entrar na correnteza. Fúria suficiente pra chacoalhar minha bolha! Estranho insuficiente pra me fazer pensar em nada e voltar ao livro.

Chegando em casa, vejo as notícias:
minha bolha só chacoalhou, mas eu estava sob um tsunami.

© Lucas Gobatti

Ensaio sobre o instinto

Peço escusa ao leitor que não se incomode com os sulcos da página. São de palavras deveras antigas escritas na folha anterior deste bloco de gerações.

Venho num momento de desconsolo discorrer sobre essa fonte de desentendimento entre o homem e si mesmo. Este insulto à razão, esta autodiscussão infundada, esta ininterrupta e interna fábrica de discordâncias que é o instinto. Ah! Como toca o fundo do ser, como faz tremer o mais inexorável dos homens, como nos corrói!

Perdoe os borrões e inconstâncias na escrita, leitor; atenho-me a culpar o papel. O grafite escorrega às concavidades deixadas como um carbono em minha folha, não há nada que eu possa fazer a respeito.

De volta às constatações, que lhe vinha a dizer de tal forma que… ah! Sim… Mas que força se faz do instinto sobre o homem. E seus meios, leitor, são baseados nas maiores torturas empregáveis a um ser. A falta de ação, o embaraço, o arrependimento. Eis a automutilação por não estar em correspondência direta com o sistema endócrino. Tantos biossinalizadores e nós aqui, prostrados à vigência social, à empresa privada das relações, aos uniformes!

Estes sulcos fazem-me irritado. Quero evitá-los mas estou a ponto de desistir e deixar-lhes guiar o lápis. Que deselegante!

Concluo, leitor, que a maior prova de amor é o instinto. Somos polígamos, ora, filóginos. Mostrar-nos avessos a ele é o maior apreço à condição de amantes que podemos manifestar. Eis a essência de se poder dizer capaz de controlar seus instintos! Ode à mulher.

 

De post scriptum coloco novamente escusas pelas ranhuras que dominam a folha. Devo destacar que enfadar-se é inútil, já que as próximas folhas do bloco devem ter ainda mais irregularidades a escapar.
Devo também trocar este título para Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre o homem e o homem. Não vem ao caso, este é só um bloco velho.

© Lucas Gobatti

 

Um gole de noite

Bicho típico da grande cidade é o cidadão notívago.

Seus braços entrecruzados se debruçam na esquadria da janela e a sensação do alumínio gelado lhe antecipa a informação por vir. Com as mãos segurando a xícara à gravidade e um certo medo pensando no que aconteceria se ele caísse dali, assim, agora mesmo? Essa vertigem entra com um sinal negativo.
Levantando a visão pra evitar a queda, os olhos cansados leem o horizonte. A neblina ao fundo é acompanhada por pequenas luzes dispersas, difusas e intermitentes; quase que como uma continuação das estrelas no céu, se não fosse pela impossibilidade de avistá-las. Sem toda a poluição era capaz que não desse pra distinguir o horizonte…  estaríamos como se na superfície de dentro da esfera.
A visão do horizonte nebuloso e esfumaçado ao longo da sua extensão é interrompida pela varanda de outro prédio.  Algumas janelas acesas aleatoriamente eventualmente sentem-se na necessidade de apagar. Algumas varandas ainda seguem iluminadas… será outro notívago? Seguindo a trajetória do café alheio caindo, o alvo é o foco de luz de um poste da rua. Quase que como um holofote a iluminar a cena de um crime. Crime contra um café. Sorve um gole da sua própria xícara e volta à rua com o barulho do líquido descendo, a garganta ecoando em sua visão. As casas imóveis definem o jogo de luz e sombra dos quarteirões; os carros estacionados e árvores o do asfalto das ruas. A paisagem de sons fracos e distantes é atrapalhada por um chutar de lata no quarteirão à frente. É possível ouvir vozes claramente, mas muito menos possível é se distinguir palavras. Os elementos da paisagem se completam com alguns carros ou motos circulando nas vias próximas e aumentando momentaneamente o nível de ruído. Às vezes também entra o barulho do trem batendo contra as irregularidades no trilho. A quebra é oposta ao ruído do notívago, ruído inerente de sua própria respiração, que também entra na composição da paisagem com um som intermitente como as estrelas na superfície do horizonte. Som borrado e grave, com algumas pausas para o café.

O cheiro gelado, úmido e orvalhado penetra seu corpo e o faz lembrar que também é parte da paisagem, fazendo-o desconfortável. Termina o café com um movimento rápido da cabeça para trás e fecha a janela com trava.

© Lucas Gobatti

Reductio ad absurdum

Demora-se a perceber o que realmente significa a ingenuidade. A vontade de justificar e abrandar as ações do observado, uma barreira ao entendimento. Ingenuidade é inerente ao ser… melhor dizendo, ao início de ser.

A posteriori, a capacidade de se perceber o que é verdadeiro e o que é falso vem da capacidade de reduzir as coisas ao absurdo.
Reduzindo a cena ao absurdo, consegue-se perceber como o que era claramente impossível às primeiras impressões torna-se possível: as outras opções são mais impossíveis ainda.
A capacidade de reduzir as coisas ao absurdo é conhecimento filosófico, é conhecimento adquirido, é conhecimento-fruto de observação. Ou conhecimento empírico?

Sei que é preciso chegar a alguns finais de história e constatar algumas coisas. É preciso olhar para si mesmo e se perguntar sobre suas intenções se você se tomasse a fazer a mesma ação. 

© Lucas Gobatti