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Clarissa – Erico Verissimo

A RECLUSÃO

Amaro recorda com amargura que na sua adolescência sentiu passar pela sua frente raparigas em flor, sem querer levantar os olhos dos livros em cuja leitura mergulhara. Elas cantavam e riam ao sol. Ele — insensato — pensava que a vida estava só nos livros…
Agora é tarde. Tarde para voltar. Tarde para corrigir. O milagre da mocidade não se repete.
Uma nuvem de tristeza empana os olhos de Amaro. Ele se ergue quase sem sentir. Põe-se a caminhar dum lado para outro, mãos às costas, o pensamento solto…
Amaro procura apagar o pensamento mau.
Agora compreende mais que nunca que só na arte a beleza é imortal. Canta-lhe na cabeça o verso de Keats:
A thing of beauty is a joy for ever.
Na verdadeira  arte nada morre. A mocidade e o encantamento se renovam perpetuamente: e a eterna luminosidade, a eterna graça.
Senta-se de novo, mais sereno.
Mas o momento luminoso de clarissa ainda não passou. Ela vive aqui na pensão, livre sob o sol, no quintal, no jardim, na sala, na varanda. Cantando, sorrindo, cumprimentando toda a gente…
E ele poderá contemplar da sombra… Inspirado em Clarissa, há de compor ainda muitas músicas frescas e alegres. A canção do minuto claro. A rapariga ao sol. Menina e moça. Uma suíte de cor e movimento que já de se chamar: “Clarissa amanhece”.
E amanhã, quando Clarissa for embora, na pensão só haverá caras envelhecidas, homens e mulheres que arrastam os seus draminhas escondidos, as suas mazelas, os seus cacoetes, as suas idiossincrasias, as suas vidocas, enfim.
A thing of beauty is a joy for ever…
Amaro torna a abrir o livro.
Gamaliel atravessa o jardim, metido na sua roupa domingueira de sarja azul. Passo miúdo e apressado, vai contente, com a Bíblia debaixo do braço.
Feliz — pensa Amaro. —Vai garantir o seu par de asas imaculadas para a Eternidade. Feliz!
— Bom dia, seu Amaro!
— Bom dia!
— Então — pergunta Gamaliel, detendo-se por um momento —, não vai a alguma missa?
Amaro faz um gesto negativo.
— Fico com os meus poetas… — explica.

© Erico Verissimo – Clarissa (excerto adaptado) – Companhia das Letras

Clarissa – Erico Verissimo

À LUTA

Papai dizia isso sempre, com a testa franzida, sacudindo a mão fechada no ar; e a medalha grande dançava contra o colete escuro.
Lutar… Amaro sentia arrepios. Lutar. Luta era sangue. Lutar era ferir e ser ferido. Homens que vencem e são vencidos. Mas que é o triunfo, que significa vencer?

© Erico Verissimo – Clarissa (excerto) – Companhia das Letras

Erico Verissimo – O Tempo e o Vento

Esta noite, debaixo da figueira da praça, quando Tio Bicho me falava no contínuo devir que é a criatura humana, raciocinei assim:
Se existir é estar potencialmente em crise
se o homem não chega nunca à plena posse de si mesmo e de seu mundo
se não é um feixe de elementos estáticos
como descrevê-lo no ato de existir senão em termos dinâmicos?
[…]

© Erico Verissimo – O Tempo e o Vento – O Arquipélago [Parte III] – Vol. 2 (excerto) – Companhia das Letras

Erico Verissimo – O Tempo E O Vento

– Uma das coisas que mais me preocupam – diz Floriano – é descobrir quais são as minhas obrigações como escritor e mais especialmente como romancista. […]. É mais ou menos assim: Nenhum homem é uma ilha, mas um pedaço de Continente… a morte de qualquer homem me diminui, porque eu estou envolvido na Humanidade… et cetera, et cetera.
[…]
– Estive pensando… – continuou Floriano. – Nenhum homem é uma ilha… O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha, e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, reside quase toda angústia de existir.
[…]
– Cada homem – prossegue este último – é uma ilha com seu clima, sua fauna, sua flora e sua história particulares.
– E a erosão – completa Tio Bicho.
– Exatamente. E a comunicação entre as ilhas é das mais precárias, por mais que as aparências sugiram o contrário. São pontes que o vento leva, às vezes apenas sinais semafóricos, mensagens truncadas escritas num código cuja chave ninguém possui.
Cala-se. Conseguirá ele agora estabelecer comunicação com essas quatro ilhas de clima e hábitos tão diferentes dos seus?
– Tenho a impressão – continua – de que as ilhas do arquipélago humano sentem dum modo ou de outro a nostalgia do Continente ao qual anseiam por se unirem. Muitos pensam resolver o problema da solidão e da separação da maneira que há pouco se mencionou, isto é, aderindo a um grupo social, refugiando-se e dissolvendo-se nele, mesmo com o sacrifício da própria personalidade. E se o grupo tem o caráter agressivo e imperialista, lá estão as suas ilhas a se prepararem, a se armarem para a guerra, a fim de conquistarem outros arquipélagos. Porque dominar e destruir também é uma maneira de integração, de comunhão, pois não é esse o espírito da antropofagia ritual?
[…]
–O que importa para cada ilha – prossegue Floriano – é vencer a solidão, o estado de alienação, o tédio ou o medo que o isolamento lhe provoca.
Faz uma pausa, dá uns passos no quarto, com a vaga desconfiança de que se está tornando aborrecido. Mas continua:
– Estou chegando à conclusão de que um dos principais objetivos do romancista é o de criar, na medida de suas possibilidades, meios de comunicação entre as ilhas de seu arquipélago… construir pontes… inventar uma linguagem, tudo isto sem esquecer que é um artista, e não um propagandista político, um profeta religioso ou um mero amanuense…

© Erico Verissimo – O Tempo e o Vento – O Arquipélago [Parte III] – Vol. I (excerto) – Companhia das Letras