Category Archives: TENTÁCULO III – Literatura

Maurice Merleau-Ponty – O Olho e o Espírito

O OLHO E O ESPÍRITO

Diremos então que há um olhar dentro, um terceiro olho que vê os quadros e mesmo as imagens mentais, como se falou de um terceiro ouvido que capta as mensagens de fora através do rumor que suscitam em nós? Pra quê? Toda a questão é compreender que nossos olhos já são muito mais que receptores para as luzes, as cores e as linhas: computadores do mundo que têm o dom do visível, como se diz que o homem inspirado tem o dom das línguas. Claro que esse dom se conquista pelo exercício, e não é em alguns meses, não tampouco na solidão que um pintor entra em posse de sua visão. A questão não é essa: precoce ou tardia, espontânea ou formada no museu, sua visão em todo caso só aprende vendo, só aprende por si mesma. O olho vê o mundo, e o que falta ao mundo para ser quadro, e o que falta ao quadro para ser ele próprio, e, na paleta, a cor que o quadro espera; e vê, uma vez feito, o quadro que responde a todas essas faltas, e vê os quadros dos outros, as respostas outras a outras faltas. Não se pode fazer um inventário limitativo do visível como tampouco dos usos possíveis de uma língua ou somente de seu vocabulário e de suas frases. Instrumento que se move por si mesmo, meio que inventa seus fins, o olho é aquilo que foi sensibilizado por um certo impacto do mundo e o restitui ao visível pelos traços da mão. Não importa a civilização em que surja, e as crenças, os motivos, os pensamentos, as cerimônias que a envolvam, e ainda que pareça votada a outra coisa, de Lascaux até hoje, pura ou impura, figurativa ou não, a pintura jamais celebra outro enigma senão o da visibilidade.

© Maurice Merleau-Ponty – O Olho e o Espírito – II – Cosac Naify

Victor Hugo – O Corcunda de Notre Dame

TUDO ERA DE PEDRA

Mais abaixo, era horrível de se ver, o telha de Saint-Jean-le-Rond parecia um pequeno cartão dobrado ao meio. O arquidiácono examinava também, uma após a outra, as impassíveis esculturas da torre, igualmente suspensas no precipício, mas sem parecerem assustadas nem demonstrarem qualquer solidariedade. Em volta, tudo era de pedra: os monstros de bocarras escancaradas, à frente; o chão duro da praça, abaixo; e Quasímodo que chorava, acima.

© Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame (excerto) – Zahar

Victor Hugo – O Corcunda de Notre Dame

ISTO MATARÁ AQUILO

Se quisermos, muito sumariamente, resumir o que dissemos até aqui, deixando de lado mil comprovações e também mil objeções de detalhe, chegamos ao seguinte: a arquitetura foi, até o século XV, o registro principal de humanidade, sem que nesse intervalo aparecesse no mundo um só pensamento mais complicado que não se tornasse edifício. Ou seja, toda ideia popular, assim como toda lei religiosa, teve seus monumentos e o gênero humano, enfim, nada pensou de importante que não fosse escrito na pedra. E por quê? Porque todo pensamento, tanto religioso quanto filosófico, quer se perpetual, porque a ideia que influenciou uma geração quer influenciar outras e deixar sua marca. E que imortalidade precária a do manuscrito! Um edifício é um livro bem mais sólido, durável e resistente! Para destruir a palavra escrita, bastam uma tocha e um turco. Para demolir a palavra construída, é preciso uma revolução social, uma revolução terrestre. Os bárbaros passaram pelo Coliseu, o dilúvio, talvez pelas pirâmides.

No Século XV, tudo muda.

O pensamento humano descobre um meio de se perpetuar, não somente mais durável e mais resistente do que a arquitetura, mas também mais simples e mais fácil. A arquitetura perde o trono. Às letras de pedra de Orfeu sucedem as letras de chumbo de Gutenberg.

O livro mata o edifício.

A invenção da imprensa é o maior acontecimento da história. É a revolução-mãe. É o modo de expressão da humanidade que se renova totalmente, é o pensamento humano que se subtrai a uma forma e se investe em outra, é a completa e definitiva mudança de pele da serpente simbólica que, desde Adão, representa a inteligência.

Sob a forma impressa, o pensamento se torna imperecível como nunca; se torna volátil, impossível de se prender, indestrutível. Mistura-se ao ar. No tempo da arquitetura, ele era montanha e poderosamente se apossava de um século e de um lugar. No tempo da imprensa, se torna bando de pássaros, se espalha aos quatro ventos e ocupa, ao mesmo tempo, todos os pontos do ar e do espaço.

[…]

Se, em vez de monumentos característicos, como estes de que acabamos de falar, examinarmos o aspecto geral da arte entre os séculos XVI e XVIII, observaremos os mesmos fenômenos de declínio e definhamento. A partir de Francisco II, a forma arquitetônica do edifício se apaga cada vez mais, realçando a forma geométrica, como se realça a estrutura óssea de um doente emagrecido. As belas linhas da arte cedem às frias e inexoráveis linhas do geômetra. O edifício deixa de ser um edifício, torna-se um poliedro. Mas a arquitetura faz de tudo para esconder essa nudez. O frontão grego se inscreve no frontão romano e vice-versa. Continua sendo o Panteão no Parthenon, São Pedro de Roma. Vejam as casas de tijolo e quinas de pedra, de Henrique IV: a praça Royale e a Praça Dauphine. E as igrejas de Luís XIII, pesadonas, atarracadas, de arco abatido, socadas, com cúpulas sobrepostas como uma corcunda. E a arquitetura do cardeal Mazarin, com seu mau pasticcio italiano, visto no Quatre-Nations. Ou os palácios de Luís XIV, compridos quartéis para cortesãos: rígidos, glaciais, tediosos. E, para concluir, Luís XV, com florezinhas e sinuosidades, verrugas e fungos que desfiguram a velha arquitetura caduca, desdentada e vaidosa. De Francisco II a Luís XV, a doença cresce em progressão geométrica. A arte se reduz à pele em cima dos ossos. Miseramente agoniza.

Enquanto isso, o que se passa com a imprensa? Toda essa vida que abandona a arquitetura se incrusta nela. À medida que a arquitetura decai, a imprensa infla e floresce. Esse capital de forças que o pensamento humano aplicava em edifícios passa a ser aplicado em livros. De forma que, a partir do século XVI, a imprensa, crescendo na medida em que a arquitetura definha, disputa a batalha e ganha. No século XVII, ela já está suficientemente soberana, triunfante e firme em sua vitória para oferecer ao mundo o espetáculo de um grande século literário. No XVIII, tendo passado muito tempo à sombra da corte de Luís XIV, ela retoma a velha espada de Lutero e arma Voltaire, correndo em seguida, amotinada, ao ataque da velha Europa, já eliminada a expressão arquitetural. No final do século XVIII, tudo tinha sido destruído. E tudo se reconstrói no XIX.

Agora perguntamos: qual das duas artes há três séculos representa realmente o pensamento humano? Qual o traduz? Qual exprime não só suas manias literárias e escolásticas, mas também seu vasto, profundo e universal movimento? Qual delas constantemente se superpõe, sem ruptura nem lacuna, ao gênero humano, como monstro de mil pés em marcha? A arquitetura ou a imprensa?

A imprensa.

© Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame (excerto) – Zahar

Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame

OS INCONVENIENTES DE SEGUIR UMA MULHER BONITA À NOITE PELAS RUAS

Sem saber o que fazer, Gringoire seguiu a cigana. Viu-a tomar com a cabra a rua de la Coutellerie e tomou, então, a rua de la Coutellerie.
— Por que não? — perguntou-se.
Gringoire, filósofo prático das ruas de Paris, já havia observado que nada é mais propício ao devaneio do que seguir uma bonita mulher sem saber aonde ela vai. Há, nessa abdicação voluntária do livre-arbítrio, nessa fantasia que se submete a outra fantasia, que a desconhece, uma mistura de independência extravagante e obediência cega, algo entre a escravidão e a liberdade, que muito agradava a Gringoire, espírito essencialmente misto, indeciso e complexo, adaptado a todos os extremos, incessantemente suspenso entre todas as propensões humanas e usando uma para neutralizar outra. Ele gostava de se comparar ao túmulo de Maomé, atraído em sentidos inversos por dois ímãs e eternamente oscilante entre o alto e o baixo, entre a abóbada e o chão, entre a queda e a ascensão, entre o zênite e o nadir.
Se Gringoire vivesse nos nossos dias, como se manteria bem entre o clássico e o romântico!

© Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame (excerto) – Zahar

Honoré de Balzac – O Lírio do Vale

SOBRE A IRRESISTIBILIDADE DO SENTIMENTO (REVISITED)

Uma lágrima brilhou nos olhos de Henriette.
—E, caro conde, se por acaso uma mulher fosse involuntariamente submetida a algum sentimento alheio aos que a sociedade lhe impõe, confesse que quanto mais esse sentimento fosse irresistível, mais ela seria virtuosa ao sufocá-lo, ao se sacrificar pelos filhos, pelo marido. Aliás, essa teoria não é aplicável a mim, que infelizmente ofereço um exemplo do contrário, nem a você, a quem jamais se aplicará.
A mão úmida e escaldante encostou-se à minha e se apoiou sobre ela, silente.

© Honoré de Balzac – O Lírio do Vale (excerto) – L&PM Pocket

Honoré de Balzac – O Lírio do Vale

CONSELHOS COMPORTAMENTAIS II

Uma das regras mais importantes da ciência das maneiras é um silêncio quase absoluto sobre si mesmo. Um dia desses, encene a comédia de falar de si mesmo a pessoas apenas conhecidas, converse com elas sobre seus sofrimentos, prazeres ou negócios, e verá a indiferença sucedendo ao interesse fingido. Depois, ao chegar o tédio, se a dona de casa não o interromper cortesmente, cada um se afastará com pretextos habilmente apresentados. Mas deseja reunir a seu redor todas as simpatias, passar por um homem amável e espirituoso, de convívio agradável? Converse sobre eles mesmos, procure uma maneira de pô-los em cena, ainda que levantando questões aparentemente inconciliáveis com os indivíduos: os rostos se animarão, as bocas lhe sorrirão, e quando você partir todos o elogiarão. Sua consciência e a voz do coração lhe dirão o limite em que começa a covardia das adulações e onde acaba a amabilidade da conversa.

© Honoré de Balzac – O Lírio do Vale (excerto) – L&PM Pocket