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Bento (in Hebrew, Baruch; in Latin, Benedictus) Spinoza is one of the most important philosophers—and certainly the most radical—of the early modern period. His thought combines a commitment to a number of Cartesian metaphysical and epistemological principles with elements from ancient Stoicism and medieval Jewish rationalism into a nonetheless highly original system. His extremely naturalistic views on God, the world, the human being and knowledge serve to ground a moral philosophy centered on the control of the passions leading to virtue and happiness. They also lay the foundations for a strongly democratic political thought and a deep critique of the pretensions of Scripture and sectarian religion. Of all the philosophers of the seventeenth-century, perhaps none have more relevance today than Spinoza.
Stanford Encyclopedia of Philosophy

Spinoza – Ética

A RESPEITO DA RAZÃO

Proposição 62. À medida que a mente concebe as coisas segundo o ditame da razão, ala é igualmente afetada, quer se trate da ideia de uma coisa futura ou passada, quer se trate da ideia de uma coisa presente.
[…]
 Escólio. Se pudéssemos ter um conhecimento adequado da duração das coisas e determinar, pela razão, o seu tempo de existência, consideraríamos as coisas futuras com o mesmo afeto com que consideramos as presentes, e à mente apeteceria como se fosse presente um bem que ela concebe como futuro. E, em consequência, necessariamente rejeitaria um bem presente menor, em favor de um bem futuro maior, e pouco apeteceria aquilo que, no presente, fosse bom, mas que fosse causa de um mal futuro. […]
Proposição 63. Quem se deixa levar pelo medo e faz o bem para evitar o mal não se conduz pela razão.
[…]
   Escólio. Os supersticiosos, que, mais do que ensinar as virtudes, aprenderam a censurar os vícios, e que se aplicam a conduzir os homens não segundo a razão, mas contê-los pelo medo, de maneira que, mais do que amar as virtudes, fujam do mal, não pretendem senão tornar os demais tão infelizes quanto eles próprios. Por isso, não é de admirar que sejam, em geral, importunos e odiosos para os homens. […]
[…]
Proposição 67. Não há nada em que o homem livre pense menos que na morte, e sua sabedoria não consiste na meditação da morte, mas da vida.
Demonstração. O homem livre, isto é, aquele que vive exclusivamente segundo o ditame da razão, não se conduz pelo medo da morte; em vez disso, deseja diretamente o bem, isto é, deseja agir, viver, conservar seu ser com base na busca da prórpria utilidade. Por isso, não há nada que pense menos que na morte; sua sabedoria consiste, em vez disso, na meditação da vida. ■

© Baruch Spinoza – Ética Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica – Quarta Parte – A servidão humana ou a força dos afetos – Autêntica

Spinoza – Ética

SOB A CONDUÇÃO DA RAZÃO

Proposição 18. […]
     Escólio. […] Como a razão não exige nada que seja contra a riqueza, ela exige que cada qual ame a si próprio; aquilo que, efetivamente, conduza o homem a uma maior perfeição; e, mais geralmente, que cada qual se esforce por conservar, tanto quanto está em si, o seu ser.
[…]
Existem, pois, muitas coisas fora de nós, que nos são úteis e que, por isso, devem ser apetecidas. Dentre elas, não se pode cogitar nenhuma outra melhor do que aquelas que estão inteiramente de acordo com a nossa natureza. Com efeito, se, por exemplo, dois indivíduos de natureza inteiramente igual se juntam, eles compõem um indivíduo duas vezes mais potente do que cada um deles considerado separadamente. Portanto, nada é mais útil ao homem do que o próprio homem. Quero com isso dizer que os homens não podem aspirar nada que seja mais vantajoso para conservar o seu ser do que estarem, todos, em concordância em tudo, de maneira que as mentes e os corpos de todos componham como que uma só mente e um só corpo, e que todos, em conjunto, se esforcem, tanto quanto possam, por conservar o seu ser, e que busquem, juntos, o que é de utilidade comum para todos. Disso se segue que os homens que seguem pela razão, isto é, os homens que buscam, sob a condução da razão, o que lhes é útil, nada apetecem para si que não desejem também para os outros e são, por isso, justos, confiáveis, leais.
Proposição 35. Apenas à medida que vivem sob a condução da razão, os homens concordam, sempre e necessariamente, em natureza.
[…]
     Corolário 1. Não há, na natureza das coisas, nenhuma coisa singular que seja mais útil ao homem do que um homem que vive sob a condução da razão. Com efeito, o que é de máxima utilidade para o homem é aquilo que concorda, ao máximo, com sua natureza, isto é, o homem. Ora, o homem age inteiramente pelas leis de sua natureza quando vive sob a condução da razão e, apenas à medida que assim vive, concorda, sempre e necessariamente, com a natureza de outro homem. Logo, não há, entre as coisas singulares, nada que seja mais útil ao homem do que um homem, etc.
     Corolário 2. É quando cada homem busca o que é de máxima utilidade para si, que são, todos, então, de máxima utilidade uns para com os outros. Com efeito, quanto mais cada um busca o que lhe é útil e se esforça por se conservar, tanto mais é dotade de virtude; ou, o que é equivalente, de tanto mais potência está dotado para agir pelas leis de sua natureza, isto é, para viver sob a condução da razão. Ora, os homens concordam, ao máximo, em natureza, quando vivem sob a condução da razão. Logo, os homens serão de máxima utilidade uns para com os outros quando cada um buscar o que lhe é de máxima utilidade.

© Baruch Spinoza – Ética Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica – Quarta Parte – A servidão humana ou a força dos afetos (excerto adaptado) – Autêntica

Spinoza – Ética

Proposição 54. A mente esforça-se por imaginar apenas aquilo que põe sua própria potência de agir.
[…]
Proposição 55. Quando a mente imagina sua impotência, por isso mesmo, ela entristece.
[…]
     Corolário 1. Essa tristeza é ainda mais intensificada se a mente imagina ser desaprovada por outros […].
     Escólio. Essa tristeza, acompanhada da ideia de nossa debilidade, chama-se humildade. Em troca, a alegria que provém da consideração de nós mesmos chama-se amor-próprio ou satisfação consigo mesmo. E como essa alegria se renova cada vez que o homem considera suas próprias virtudes, ou seja, sua própria potência de agir, ocorre também que cada um se compraz em contar seus feitos e em exibir suas forças, tanto as do corpo quanto as do ânimo, o que torna os homens reciprocamente insuportáveis. Disso se segue ainda que os homens são, por natureza, invejosos […], ou seja, eles se enchem de gáudio com as debilidades de seus semelhantes e, por outro lado, se entristecem com suas virtudes. Com efeito, cada vez que alguém imagina suas próprias ações é afetado de alegria, que será tanto maior quanto maior for o grau de perfeição que essas ações exprimem e quanto mais distintamente as imaginar, isto é […], quanto mais puder distingui-las das outras e considerá-las como coisas singulares. É por isso que cada um extrai o máximo de gáudio de sua própria consideração quando considera em si algo que vê como em falta nos outros. Mas se relaciona o que afirma sobre si próprio à ideia genérica de homem ou de animal, já não se encherá tanto de gáudio. Se, por outro lado, imagina que suas ações, em comparação com as de outros, são inferiores, ele se entristecerá, mas se esforçará por afastar essa tristeza, o que fará interpretando desfavoravelmente as ações de seus semelhantes ou exagerando as suas tanto quanto pode. Fica claro, pois, que os homens estão, por natureza, propensos ao ódio e à inveja, o que é reforçado pela própria educação. Com efeito, os pais têm o costume de incitar os filhos à virtude, tendo como únicos estímulos a busca de honrarias e a inveja. Subsiste, entretanto, talvez, alguma dúvida, pois não é raro admirarmos as virtudes dos homens e venerá-los. Para dissipá-la, acrescento o corol. que se segue.
     Corolário 2. Ninguém inveja a virtude de um outro, a menos que se trate de alguém que lhe seja igual.
     Demonstração. A inveja é o próprio ódio […], ou seja […], uma tristeza, isto é […], uma afecção pela qual a potência de agir do homem – ou o seu esforço – é refreada. Ora, o homem […] não se esforça por fazer nada nem deseja nada que não possa se seguir de sua natureza tal como ela é dada. Portanto, o homem não desejará que lhe seja atribuída nenhuma potência de agir ou, o que é o mesmo, nenhuma virtude que seja própria da natureza de um outro e alheia à sua. Portanto, o seu desejo não pode ser refreado, isto é […], ele não pode se entristecer por considerar alguma virtude em alguém que não lhe é semelhante e não poderá, consequentemente, invejá-lo. Invejará, entretanto, o seu igual, que, supostamente, é da mesma natureza. ■
     Escólio. Quando, portanto, anteriormente, no esc. da prop. 52, dissemos que veneramos um homem por admirarmos seu discernimento, sua força etc., isso ocorre […] porque imaginamos que essas virtudes se encontram nele de uma maneira singular e não como algo comum à nossa natureza. Consequentemente, não o invejaremos por essas virtudes, tal como não invejamos as árvores por sua altura, os leões por sua força etc.

© Baruch Spinoza – Ética Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica – Terceira Parte – A origem e a natureza dos afetos (excerto adaptado) – Autêntica

Spinoza – Ética

Definições
1. Por causa de si compreendo aquilo cuja essência envolve a existência, ou seja, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existe.
2. Diz-se finita em seu gênero aquela coisa que pode ser limitada por outra da mesma natureza. Por exemplo, diz-se que um corpo é finito porque sempre concebemos um outro maior. […]
3. Por substância compreendo aquilo que existe em si mesmo e que por si mesmo é concebido, isto é, aquilo cujo conceito não exige o conceito de outra coisa do qual deva ser formado.
4. Por atributo compreendo aquilo que, de uma substância, o intelecto percebe como constituindo a sua essência.
5. Por modo compreendo as afecções de uma substância, ou seja, aquilo que existe em outra coisa, por meio da qual é também concebido.
6. Por Deus compreendo um ente absolutamente infinito, isto é, uma substância que consiste de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita. […]
7. Diz-se livre a coisa que existe exclusivamente pela necessidade de sua natureza e que por si só é determinada a agir. E diz-se necessária, ou melhor, coagida, aquela coisa que é determinada por outra a existir e a operar de maneira definida e determinada.
8. Por eternidade compreendo a própria existência, enquanto concebida como se seguindo, necessariamente, apenas a definição de uma coisa eterna. […]

Axiomas
1. Tudo o que existe, existe ou em si mesmo ou em outra coisa.
2. Aquilo que não pode ser concebido por meio de outra coisa deve ser concebido por si mesmo.
3. De uma causa dada e determinada segue-se necessariamente um efeito; e, inversamente, se não existe nenhuma causa determinada, é impossível que se siga um efeito.
4. O conhecimento do efeito depende do conhecimento da causa e envolve este último.
5. Não se pode compreender, uma por meio da outra, coisas que nada têm de comum entre si; […]
6. Uma ideia verdadeira deve concordar com seu ideado*;
7. Se uma coisa pode ser concebida como inexistente, sua essência não envolve a existência.

*Ideado: conjunto de coisas percebidas.

Proposições
Proposição 1. Uma substância é, por natureza, primeira, relativamente às suas afecções.
Demonstração. É evidente, pelas def. 3 e 5.
Proposição 2. Duas substâncias que têm atributos diferentes nada têm de comum entre si.
Demonstração. É, pela def. 3, igualmente evidente. Com efeito, cada uma das substâncias deve existir em si mesma e por si mesma deve ser concebida, ou seja, o conceito de uma não envolve o conceito da outra.
Proposição 3. No caso de coisas que nada têm de comum entre si, uma não pode ser causa de outra.
Demonstração. Se não têm nada de comum entre si, então (pelo ax. 5), uma não pode ser compreendida por meio de outra e, portanto (pelo ax. 4), uma não pode ser causa de outra. ■
Proposição 4. Duas ou mais coisas distintas distinguem-se entre si ou pela diferença dos atributos das substâncias ou pela diferença das afecções dessas substâncias.
Demonstração. Tudo o que existe ou existe em si mesmo ou em outra coisa (pelo ax. 1), isto é (pelas def. 3 e 5), não existe nada, fora do intelecto, além das substâncias e suas afecções. Não existe nada, pois, fora do intelecto, pelo qual se possam distinguir várias coisas entre si, a não ser as substâncias ou, o que é o mesmo (pela def. 4), seus atributos e suas afecções. ■
Proposição 5. Não podem existir, na natureza das coisas, duas ou mais substâncias de mesma natureza ou de mesmo atributo.
Demonstração. Se existirem duas ou mais substâncias distintas, elas deveriam distinguir-se entre si ou pela diferença dos atributos ou pela diferença das afecções (pela prop. prec.). Se elas se distinguissem apenas pela diferença dos atributos, é de se admitir, então, que não existe senão uma única substância de mesmo atributo. Se elas se distinguissem, entretanto, pela diferença das afecções, como uma substância é, por natureza, primeira, relativamente às suas afecções (pela prop. 1), se essas forem deixadas de lado e ela for considerada em si mesma, isto é (pela def. 3 e pelo ax. 6), verdadeiramente, então não se poderá concebê-la como sendo distinta de outra, isto é (pela prop. prec.), não podem existir várias substâncias, mas tão somente uma única substância. ■
Proposição 6. Uma substância não pode ser produzida por outra substância.
Demonstração. Não podem existir, na natureza das coisas, duas substâncias de mesmo atributo (pela prop. prec.), isto é (pela prop. 2), que tenham algo de comum entre si. Portanto (pela prop. 3), uma não pode ser causa da outra, ou seja, uma substância não pode ser produzida pela outra. […] ■
Proposição 7. À natureza de uma substância pertence o existir.
Demonstração. Uma substância não pode ser produzida por outra coisa (pela prop. prec.). Ela será, portanto, causa de si mesma, isto é (pela def. 1), a sua essência necessariamente envolve a existência, ou seja, à sua natureza pertence o existir. ■
Proposição 8. Toda substância é necessariamente infinita.
Demonstração. Não existe senão uma única substância de mesmo atributo (pela prop. 5), e à sua natureza pertence o existir (pela prop. 7). À sua natureza, portanto, pertencerá o existir, ou como finita ou como infinita. Ora, não poderá ser como finita, pois (pela def. 2), neste caso, ela deveria ser limitada por outra da mesma natureza, a qual também deveria necessariamente existir (pela prop. 7). Existiriam, então, duas substâncias de mesmo atributo, o que é absurdo (pela prop. 5). Logo, ela existe como infinita. ■ […]
     Escólio 2. […] deve-se concluir, de maneira geral, que tudo aquilo cuja natureza é tal que possa existir em vários indivíduos deve, necessariamente, para que eles existam, ter uma causa exterior. […]
Proposição 9. Quanto mais realidade ou ser uma coisa tem, tanto mais atributos lhe competem.
Demonstração. Isso é evidente pela def. 4.
Proposição 10. Cada Atributo de uma substância deve ser concebido por si mesmo.
Demonstração. Com efeito, o atributo é aquilo que,da substância, o intelecto percebe como constituindo a sua essência (pela def. 4). Portanto (pela def. 3), o atributo deve ser concebido por si mesmo. ■
     Escólio. […] é da natureza da substância que cada um de seus atributos seja concebido por si mesmo, já que todos os atributos que ela tem sempre existiram, simultaneamente, nela, e nenhum pôde ter sido produzido por outro, mas cada um deles exprime a realidade, ou seja, o ser da substância. Está, portanto, longe de ser absurdo atribuir vários atributos a uma substância.
Proposição 11. Deus, ou seja, uma substância que consta de infinitos atributos, cada um dos quais exprime uma essência eterna e infinita, existe necessariamente.
Demonstração. Se negas isso, concebe, se for possível, que Deus não existe. Nesse caso (pelo ax. 7), a sua essência não envolve a existência. Ora, isso (pela prop. 7) é absurdo. Logo, Deus existe necessariamente. ■
     Escólio. […] Com efeito, as coisas que são produzidas por causas exteriores, consistam elas de muitas ou de poucas partes, devem tudo o que têm de perfeição (ou seja, de realidade) à virtude da causa exterior e, assim, sua existência tem origem unicamente na perfeição da causa exterior e não na sua própria causa. Em oposição, nada do que uma substância tem de perfeição é devido a qualquer causa exterior e, assim, também a sua existência deve decorrer unicamente de sua própria natureza, existência que nada mais é, portanto, do que sua própria essência. Logo, a perfeição de uma coisa não retira sua existência, mas, em vez disso, a põe; a imperfeição, ao contrário, a retira e, por isso, não há nenhuma existência sobre a qual possamos estar mais certos do que a do ente absolutamente infinito ou perfeito, isto é, de Deus.

© Baruch Spinoza – Ética Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica – Primeira Parte – Deus (excerto adaptado) – Autêntica

Observação: O texto na sua totalidade traz muitas outras considerações a respeito do tema. O tratamento aqui foi mínimo, mas traz a proposição mais central do livro, que é a existência de Deus. É interessante a leitura completa.