Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame

OS INCONVENIENTES DE SEGUIR UMA MULHER BONITA À NOITE PELAS RUAS

Sem saber o que fazer, Gringoire seguiu a cigana. Viu-a tomar com a cabra a rua de la Coutellerie e tomou, então, a rua de la Coutellerie.
— Por que não? — perguntou-se.
Gringoire, filósofo prático das ruas de Paris, já havia observado que nada é mais propício ao devaneio do que seguir uma bonita mulher sem saber aonde ela vai. Há, nessa abdicação voluntária do livre-arbítrio, nessa fantasia que se submete a outra fantasia, que a desconhece, uma mistura de independência extravagante e obediência cega, algo entre a escravidão e a liberdade, que muito agradava a Gringoire, espírito essencialmente misto, indeciso e complexo, adaptado a todos os extremos, incessantemente suspenso entre todas as propensões humanas e usando uma para neutralizar outra. Ele gostava de se comparar ao túmulo de Maomé, atraído em sentidos inversos por dois ímãs e eternamente oscilante entre o alto e o baixo, entre a abóbada e o chão, entre a queda e a ascensão, entre o zênite e o nadir.
Se Gringoire vivesse nos nossos dias, como se manteria bem entre o clássico e o romântico!

© Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame (excerto) – Zahar

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