Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

SOBRE MÉTODOS DE CONTAGEM I

A alegação mais descarada do Determinismo Linguístico nos últimos anos é o estudo de Peter Gordon sobre a noção de números num povo amazônico. Como já lemos, Gordon defendeu a “versão mais forte” da hipótese whorfiana, e foi assim que o estudo foi descrito pela imprensa em 2004. A tribo pirahã, do Brasil, como muitos outros povos caçadores e coletores,  conta apenas com três palavras para números, que significam “um”, “dois” e “muitos”. Mesmo essas são usadas de forma imprecisa, mais ou menos como a expressão em inglês a couple, que tecnicamente se refere a dois, mas que é  muitas vezes usada para outros números pequenos.
[…]
Antigamente, eu ficava estupefato com a prevalência de sistemas de contagem “um, dois, muitos” entre povos iletrados, até que perguntei ao antropólogo Napoleon Chagnon (que tinha estudado outra tribo amazônica, os ianomâmis) como eles surgem. Ele disse que em seu dia-a-dia os ianomâmis não precisam de números exatos porque seguem os objetos como indivíduos, um por um. Um caçador, por exemplo, reconhece cada uma de suas flechas e, portanto, sabe se uma está faltando sem ter de contá-las. É o mesmo costume mental que faria a maioria de nós ter de parar para pensar se alguém nos perguntasse quantos primos de primeiro grau temos, ou quantos eletrodomésticos temos na cozinha, ou quantos orifícios temos na cabeça.

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento – Companhia das Letras

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