J.-D. Nasio – Por que repetimos os mesmos erros

AMOR COMO RESULTADO

Para fechar nossas considerações sobre identidade e repetição, não posso deixar de expor-lhes uma espantosa confidência de Descartes, na qual ele confirma nossa tese quanto à afeição inconsciente a um traço: amamos nosso amado não pelo que ele é, mas por ele ser portador de um traço que o torna desejável a nossos olhos. Agora escutemos o filósofo revelando seu segredo: “Quando eu era criança, gostava de uma garota da minha idade que era vesga. Quando eu via seus olhos esbugalhados, sentia fervilhar a paixão do amor. Mais tarde, durante muito tempo, vendo as pessoas vesgas, sentia-me mais inclinado a apreciá-las do que outras, só porque tinham esse defeito; e, contudo, não sabia ser esta a razão. Assim, quando somos impelidos a gostar de alguém, sem que saibamos a causa, sabemos que isso resulta do fato de existir alguma coisa nele semelhante ao que existiu num outro objeto que amamos antes, ainda que não saibamos o que é“. (Carta a Chanut de 6 de junho de 1647).

© J. -D. Nasio – Por que repetimos os mesmos erros (excerto) – Zahar

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