Victor Hugo – Os Trabalhadores do Mar

PIEUVRE

Não há aperto igual ao do cefalópode.
É uma máquina pneumática que ataca. Luta-se com o nada ornado de patas. Nem unhas nem dentes; uma escarificação indizível. Uma mordedura é temível; é menos ainda que uma sucção. A garra não iguala a ventosa. A garra é o animal que entra na carne; a ventosa é o homem que entra no bicho. Incham-se os músculos, torcem-se as fibras, rebenta a pele, debaixo de um peso imundo, jorra o sangue e mistura-se horrivelmente à linfa do molusco. O bicho sobrepõe-se ao homem por mil bocas infames; a hidra incorpora-se ao homem; o homem amalgama-se à hidra. Ficam sendo um só. Pesa aquele sonho. O tigre pode antes apenas devorar; o polvo (o horror!) aspira. Puxa o homem a si e em si, e, atado, enviscado, impotente, o homem sente-se lentamente esvaziado naquele terrível saco, que é um monstro.
Além do terrível, que é ser comido vivo, há o inexprimível, que é ser bebido vivo.

© Victor Hugo – Os Trabalhadores do Mar (excerto) – Cosacnaify

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