Um gole de noite

Bicho típico da grande cidade é o cidadão notívago.

Seus braços entrecruzados se debruçam na esquadria da janela e a sensação do alumínio gelado lhe antecipa a informação por vir. Com as mãos segurando a xícara à gravidade e um certo medo pensando no que aconteceria se ele caísse dali, assim, agora mesmo? Essa vertigem entra com um sinal negativo.
Levantando a visão pra evitar a queda, os olhos cansados leem o horizonte. A neblina ao fundo é acompanhada por pequenas luzes dispersas, difusas e intermitentes; quase que como uma continuação das estrelas no céu, se não fosse pela impossibilidade de avistá-las. Sem toda a poluição era capaz que não desse pra distinguir o horizonte…  estaríamos como se na superfície de dentro da esfera.
A visão do horizonte nebuloso e esfumaçado ao longo da sua extensão é interrompida pela varanda de outro prédio.  Algumas janelas acesas aleatoriamente eventualmente sentem-se na necessidade de apagar. Algumas varandas ainda seguem iluminadas… será outro notívago? Seguindo a trajetória do café alheio caindo, o alvo é o foco de luz de um poste da rua. Quase que como um holofote a iluminar a cena de um crime. Crime contra um café. Sorve um gole da sua própria xícara e volta à rua com o barulho do líquido descendo, a garganta ecoando em sua visão. As casas imóveis definem o jogo de luz e sombra dos quarteirões; os carros estacionados e árvores o do asfalto das ruas. A paisagem de sons fracos e distantes é atrapalhada por um chutar de lata no quarteirão à frente. É possível ouvir vozes claramente, mas muito menos possível é se distinguir palavras. Os elementos da paisagem se completam com alguns carros ou motos circulando nas vias próximas e aumentando momentaneamente o nível de ruído. Às vezes também entra o barulho do trem batendo contra as irregularidades no trilho. A quebra é oposta ao ruído do notívago, ruído inerente de sua própria respiração, que também entra na composição da paisagem com um som intermitente como as estrelas na superfície do horizonte. Som borrado e grave, com algumas pausas para o café.

O cheiro gelado, úmido e orvalhado penetra seu corpo e o faz lembrar que também é parte da paisagem, fazendo-o desconfortável. Termina o café com um movimento rápido da cabeça para trás e fecha a janela com trava.

© Lucas Gobatti

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