Victor Hugo – Os Trabalhadores do Mar

CORNE DE LA BÊTE

Na extremidade da peninsula da casa mal-assombrada havia uma grande rocha, que os pescadores do Hommet chamavam Corne de la Bête. Essa rocha, espécie de pirâmide assemelhava-se, posto que menos elevada, ao Pináculo de Jersey. Nas marés cheias, o mar separava-a da península e a Corne de la Bête ficava isolada. Nas vazantes ia-se até lá por um istmo de rochas praticáveis. A curiosidade do rochedo era, do lado do mar, uma espécie de cadeira natural cavada pelas águas e polida pela chuva. Era pérfida a tal cadeira. A gente ia insensivelmente arrastada até ali pela beleza da vista; parava por amor da perspectiva, como se diz em Guernessey; o encanto dos grandes horizontes retinha lá o observador curioso. A cadeira oferecia-se logo aos olhos dele; era uma espécie de nicho na fachada a pique do rochedo; trepar àquele nicho era coisa fácil; o mar que o talhara tinha feito embaixo uma espécie de escada de pedras chatas, comodamente dispostas; o abismo tem dessas atenções, desconfia sempre da sua cortesia; a cadeira tentava, a gente subia e assentava-se; sentia-se a gosto; tinha por assento o granito gasto e arredondado pela escuma, e por braços duas anfractuosidades que pareciam feitas de propósito; por encosto, toda a alta muralha vertical do rochedo que a gente admirava sem pensar na impossibilidade de escalá-la; era simples esquecer-se sentado naquela poltrona; descobria-se todo o mar, viam-se ao longe os navios entrar e sair, podia-se acompanhar com os olhos uma vela até mergulhar-se além dos Casquets, sobre a rotundidade do oceano; pasmava-se, olhava-se, gozava-se; sentia-se o afago da brisa e do mar; há em Caiena um vespertílio, que adormece a gente na sombra com um suave e tenebroso agitar de asas; o vento é esse morcego invisível; quando não devasta, faz adormecer. Contemplava-se o mar; ouvia-se o vento, até que vinha o letargo do êxtase. Quando os olhos se enchem de um excesso de beleza e de luz, fechá-los é voluptuosidade. Acordava-se de súbito. Era tarde. A maré crescera a pouco e pouco. A água cingia o rochedo.
Estava-se perdido.
Tremendo bloqueio é o mar que sobe!
A maré cresce insensivelmente ao princípio, depois com violência. Chegando às rochas, encoleriza-se, escuma. Nem sempre se pode nadar junto aos cachopos. Excelentes nadadores morreram afogados naquele lugar.
Em certos pontos, a certas horas, contemplar o mar é sorver um veneno. É o que acontece, às vezes, olhando para uma mulher.

© Victor Hugo – Os Trabalhadores do Mar (excerto) – Cosacnaify

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