Robert K. Merton – Ensaios de Sociologia da Ciência

AS FUNÇÕES DAS NORMAS DA CIÊNCIA PURA

Um sentimento, que é assimilado pelo cientista desde o início de seu treinamento, diz respeito à pureza da ciência. A ciência não pode aceitar transformar-se no serviçal da teologia, da economia ou do Estado. A função desse sentimento é igualmente preservar a autonomia da ciência. Pois se critérios extracientíficos de valor da ciência, tais como a consonância presumida com doutrinas religiosas, ou a utilidade econômica, ou a pertinência política forem adotados, a ciência se tornará aceitável somente na medida em que atender a esses critérios. Em outras palavras, à medida que o sentimento da ciência pura é eliminado, a ciência torna-se sujeita ao controle direto de outras agências institucionais e seu lugar na sociedade torna-se incrivelmente incerto. O repúdio persistente dos cientistas pela aplicação de normas utilitárias  ao seu trabalho tem como principal função evitar esse perigo, que é particularmente marcante no tempo atual. Um reconhecimento tácito dessa função pode ser a fonte desse brinde, possivelmente apócrifo, em um jantar de cientistas em Cambridge: à matemática pura, e que ela jamais tenha uso algum para ninguém!

© Robert K. Merton  – Ensaios de Sociologia da Ciência (excerto) – Editora 34

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