Mário de Andrade – A Revelação

ORAÇÃO DE PARANINFO – DISCURSO DO INCENTIVO À ARTE

Quem já viu um verdadeiro mecenas entre nós! São aliás raríssimos no Brasil, riquezas enormes que permitam o exercício dum permanente mecenismo. Mas esse não é o maior empecilho porém. O mais profundo obstáculo ao mecenismo nacional, alguém já disse, é a obsessão da Santa Casa. Nós ainda sofremos o peso dessa tradição culturalmente devastadora, pela qual quem quer e pode fazer um benefício, dá dinheiro pra Santa Casa, dá dinheiro pra velhice, dá dinheiro aos pobres. Inda bem que se junta a essa caridade, o dar às vezes mais iluminadamente dinheiro para as criancinhas também. Mas a tradição grudenta, o imperativo que organiza inconscientemente os gestos dos benfeitores, é o horror da doença ou da pobreza que esmola na rua. De sorte que a função quasi única do conceito nacional de humanidade é uma proteção negativa, por assim dizer; protege-se a doença e a incapacidade, ninguém não lembra de proteger são e capazes.

Atentai bem, senhores diplomandos e meus senhores: eu não quero com estas afirmativas ásperas, acusar a caridade em si mesma, nem sequer recusar a proteção a santas casas e asilos. Reconheço mesmo, sem o menor receio de invalidar a minha tese, que essa forma de proteção que qualifiquei de negativa, sempre de algum modo é positiva também, porque defende os capazes, tirando do seu meio o mau exemplo da doença e da pobreza-ofício. O que eu indigito como espécie da nossa incultura, é este viver dentro da morte, esse desgalhamento da visão católica do outro mundo, que nos leva a uma caridade assustada, a uma caridade supersticiosa, a uma caridade esquecida de que a própria vida é uma oração. Ninguém aceita a vida como um benefício de Deus. Ninguém compreende a existência como uma luta, mas como um perigo de ir pro inferno. E de tamanho obscurantismo, talvez não haja outro país onde o único sistema de emprestar a Deus seja dar aos pobres e aos doentes. Dá-se ao incapaz que vai morrer, recusa-se ao capaz que vai fazer.

© Mário de Andrade – A Revelação – Oração de Paraninfo (1985) (excerto adaptado) – Leituras Indispensáveis – Aziz Ab’Sáber (org.) – Ateliê Editorial

A Oração de Paraninfo dirigida aos formandos do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, em 1935, representa o mais importante documento sobre o espírito crítico, a cultura e o comportamento ideológico e ético do grande intelectual paulista e brasileiro.

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