Expressões alfarrábicas

A vista da primeira cena é de cima pra baixo. Que vê o sapato elevando-se ao degrau e o joelho a entrar pra só depois ver a cabeça e os ombros.
A entrada por aquela porta devia ter sido uma macrotransição; como quando se rompe a barreira do som. Mas foi como sempre há de ser: sem sensação, sem saber quando acontece. É assim que são as grandes transições.

Cheiro de papel mofado. Cheiro de livro velho, de bordo de página queimado pelo ar.
O olhar vai passando pelas estantes e os livros se abrem, vários ao mesmo tempo. Vários caem ao chão, vários são pegos por seus tentáculos invisíveis. Tudo aquilo vira uma grande bagunça de páginas e capas soltas e tudo sai da organização.
Os tentáculos se debatem e dilatam numa ânsia de tocar toda capa, todapágina, toaletra, palavra. Passar pelos brilhos de tinta preta e relevos de cada tipo. As ventosas grudam em versos, deixam capítulos sob o vácuo, jogam livros ao longe.
E o movimento dos tentáculos é incessante. Batem em livros e os jogam cada vez mais longe. …livros deslizam ao chão. Que tipo de conhecimento se reserva num vão entre páginas? …livros batem em livros. Quanto da humanidade tem aqui dentro? …livros de encontro às paredes. Quanto tempo de uma vida se imprime em papel? …livros formando parábolas!

E enfim tudo cai ao chão. Os tentáculos se recolhem e a voz sai sem muita força:
“Tudo bom? Vou levar só este aqui mesmo.”

© Lucas Gobatti

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