Spinoza – Ética

Proposição 54. A mente esforça-se por imaginar apenas aquilo que põe sua própria potência de agir.
[…]
Proposição 55. Quando a mente imagina sua impotência, por isso mesmo, ela entristece.
[…]
     Corolário 1. Essa tristeza é ainda mais intensificada se a mente imagina ser desaprovada por outros […].
     Escólio. Essa tristeza, acompanhada da ideia de nossa debilidade, chama-se humildade. Em troca, a alegria que provém da consideração de nós mesmos chama-se amor-próprio ou satisfação consigo mesmo. E como essa alegria se renova cada vez que o homem considera suas próprias virtudes, ou seja, sua própria potência de agir, ocorre também que cada um se compraz em contar seus feitos e em exibir suas forças, tanto as do corpo quanto as do ânimo, o que torna os homens reciprocamente insuportáveis. Disso se segue ainda que os homens são, por natureza, invejosos […], ou seja, eles se enchem de gáudio com as debilidades de seus semelhantes e, por outro lado, se entristecem com suas virtudes. Com efeito, cada vez que alguém imagina suas próprias ações é afetado de alegria, que será tanto maior quanto maior for o grau de perfeição que essas ações exprimem e quanto mais distintamente as imaginar, isto é […], quanto mais puder distingui-las das outras e considerá-las como coisas singulares. É por isso que cada um extrai o máximo de gáudio de sua própria consideração quando considera em si algo que vê como em falta nos outros. Mas se relaciona o que afirma sobre si próprio à ideia genérica de homem ou de animal, já não se encherá tanto de gáudio. Se, por outro lado, imagina que suas ações, em comparação com as de outros, são inferiores, ele se entristecerá, mas se esforçará por afastar essa tristeza, o que fará interpretando desfavoravelmente as ações de seus semelhantes ou exagerando as suas tanto quanto pode. Fica claro, pois, que os homens estão, por natureza, propensos ao ódio e à inveja, o que é reforçado pela própria educação. Com efeito, os pais têm o costume de incitar os filhos à virtude, tendo como únicos estímulos a busca de honrarias e a inveja. Subsiste, entretanto, talvez, alguma dúvida, pois não é raro admirarmos as virtudes dos homens e venerá-los. Para dissipá-la, acrescento o corol. que se segue.
     Corolário 2. Ninguém inveja a virtude de um outro, a menos que se trate de alguém que lhe seja igual.
     Demonstração. A inveja é o próprio ódio […], ou seja […], uma tristeza, isto é […], uma afecção pela qual a potência de agir do homem – ou o seu esforço – é refreada. Ora, o homem […] não se esforça por fazer nada nem deseja nada que não possa se seguir de sua natureza tal como ela é dada. Portanto, o homem não desejará que lhe seja atribuída nenhuma potência de agir ou, o que é o mesmo, nenhuma virtude que seja própria da natureza de um outro e alheia à sua. Portanto, o seu desejo não pode ser refreado, isto é […], ele não pode se entristecer por considerar alguma virtude em alguém que não lhe é semelhante e não poderá, consequentemente, invejá-lo. Invejará, entretanto, o seu igual, que, supostamente, é da mesma natureza. ■
     Escólio. Quando, portanto, anteriormente, no esc. da prop. 52, dissemos que veneramos um homem por admirarmos seu discernimento, sua força etc., isso ocorre […] porque imaginamos que essas virtudes se encontram nele de uma maneira singular e não como algo comum à nossa natureza. Consequentemente, não o invejaremos por essas virtudes, tal como não invejamos as árvores por sua altura, os leões por sua força etc.

© Baruch Spinoza – Ética Demonstrada Segundo a Ordem Geométrica – Terceira Parte – A origem e a natureza dos afetos (excerto adaptado) – Autêntica

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s