Erico Verissimo – O Tempo E O Vento

– Uma das coisas que mais me preocupam – diz Floriano – é descobrir quais são as minhas obrigações como escritor e mais especialmente como romancista. […]. É mais ou menos assim: Nenhum homem é uma ilha, mas um pedaço de Continente… a morte de qualquer homem me diminui, porque eu estou envolvido na Humanidade… et cetera, et cetera.
[…]
– Estive pensando… – continuou Floriano. – Nenhum homem é uma ilha… O diabo é que cada um de nós é mesmo uma ilha, e nessa solidão, nessa separação, na dificuldade de comunicação e verdadeira comunhão com os outros, reside quase toda angústia de existir.
[…]
– Cada homem – prossegue este último – é uma ilha com seu clima, sua fauna, sua flora e sua história particulares.
– E a erosão – completa Tio Bicho.
– Exatamente. E a comunicação entre as ilhas é das mais precárias, por mais que as aparências sugiram o contrário. São pontes que o vento leva, às vezes apenas sinais semafóricos, mensagens truncadas escritas num código cuja chave ninguém possui.
Cala-se. Conseguirá ele agora estabelecer comunicação com essas quatro ilhas de clima e hábitos tão diferentes dos seus?
– Tenho a impressão – continua – de que as ilhas do arquipélago humano sentem dum modo ou de outro a nostalgia do Continente ao qual anseiam por se unirem. Muitos pensam resolver o problema da solidão e da separação da maneira que há pouco se mencionou, isto é, aderindo a um grupo social, refugiando-se e dissolvendo-se nele, mesmo com o sacrifício da própria personalidade. E se o grupo tem o caráter agressivo e imperialista, lá estão as suas ilhas a se prepararem, a se armarem para a guerra, a fim de conquistarem outros arquipélagos. Porque dominar e destruir também é uma maneira de integração, de comunhão, pois não é esse o espírito da antropofagia ritual?
[…]
–O que importa para cada ilha – prossegue Floriano – é vencer a solidão, o estado de alienação, o tédio ou o medo que o isolamento lhe provoca.
Faz uma pausa, dá uns passos no quarto, com a vaga desconfiança de que se está tornando aborrecido. Mas continua:
– Estou chegando à conclusão de que um dos principais objetivos do romancista é o de criar, na medida de suas possibilidades, meios de comunicação entre as ilhas de seu arquipélago… construir pontes… inventar uma linguagem, tudo isto sem esquecer que é um artista, e não um propagandista político, um profeta religioso ou um mero amanuense…

© Erico Verissimo – O Tempo e o Vento – O Arquipélago [Parte III] – Vol. I (excerto) – Companhia das Letras

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