Friedrich Nietzsche – O Anticristo

Chamam ao Cristianismo a religião da compaixão. A compaixão está em contradição com as emoções tônicas, que elevam a energia do sentimento vital; a compaixão tem uma ação depressiva. Quando alguém se compadece, perde a força. Pela compaixão aumenta-se e multiplica-se o desperdício de energia que o sofrimento torna-se, pela compaixão, infeccioso; em determinadas circunstâncias, pode chegar-se a um desperdício global de vida e de energia vital, que se encontra numa relação absurda com o quantum da causa (o caso da morte do Nazareno). Eis o primeiro ponto de vista; mas existe outro ainda mais importante. Supondo que se mede a compaixão pelo valor das reações que costuma suscitar, surge ainda mais claramente o seu caráter nocivo à vida. Em linhas gerais, a compaixão contradiz a lei da evolução que é a lei da seleção. Conserva o que está maduro para o declínio, luta em prol dos deserdados e dos condenados pela vida; e, pela abundância dos falhados de toda a espécie que mantém vivos, confere à própria vida um aspecto lúgubre e duvidoso. Ousou-se mesmo chamar virtude à compaixão (em qualquer moral nobre, surge como fraqueza); foi-se mais longe, fez-se dela a virtude, o solo e a origem de todas as virtudes – só que, e é necessário não o esquecer, a partir do ponto de vista de uma filosofia que era niilista, que inscrevia como divisa no seu escudo a negação da vida. Schopenhauer tinha razão ao dizer: “A vida é negada pela compaixão, a compaixão torna a vida ainda mais digna de ser negada” – compadecer-se é a prática do niilismo. Uma vez mais: este instinto depressivo e contagioso contradiz os instintos de conservação e de valorização da vida: como multiplicador da miséria, mais ainda como conservador de todos os míseros, é um instrumento  essencial na acentuação da décadence; a compaixão incita ao nada!… Não se diz “nada”: menciona-se em seu lugar “o além”, ou “Deus”, ou “a verdadeira vida”; ou ainda Nirvana, redenção, beatitude… Esta inocente retórica, proveniente do domínio da idiossincrasia religiosa e moral, revela-se logo muito menos inocente quando se elucida qual a tendência que ali se abriga, sob o manto de sublimes palavras: a tendência hostil à vida. Schopenhauer era inimigo da vida; por isso, a piedade se transformou para ele numa virtude… Aristóteles, como se sabe, via a compaixão num estado mórbido e perigoso, que seria útil extirpar de quando em quando por meio de um purgante: para ele, o purgante era a tragédia. Em nome do instinto vital, deveria efetivamente arranjar-se um meio de enfraquecer essa acumulação de piedade, tão mórbida e nociva, como se nos depara no caso de Schopenhauer (e, infelizmente, também no de toda a nossa décadence literária e artística. desde S. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a Wagner): que rebente… Nada de mais insalubre, no meio da nossa insalubre modernidade, do que a nossa compaixão cristã. É que importa ser médico, é que é preciso ser implacável e manejar o escalpelo – eis o que nos incumbe, eis a nossa filantropia, eis o que nos faz filósofos, a nós, hiperbóreos!

© Friedrich Nietzche – O Anticristo – Capítulo 7 (na totalidade) – Saraiva de Bolso

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