Ingrid Vorsatz – Antígona e a ética trágica da psicanálise

Ingrid Vorsatz

HAMLET, ÉDIPO REI E ANTÍGONA

Freud havia se referido ao Hamlet de Shakespeare como sendo uma “tragédia de caráter”, à diferença de Édipo rei, que, a seu ver, caracterizaria a “tragédia de destino” por excelência. Ao tratar da problemática referente ao desejo incestuoso, Freud retoma essa tragédia sofocliana para mostrar que a ação da peça – que consiste no processo de revelar ao herói trágico sua responsabilidade em relação aos crimes que, sem saber, cometera – poderia ser comparada ao trabalho de uma psicanálise. Mas a quest˜åo do destino, no seu entender, diz respeito ao fato de que o desejo incestuoso pela mãe e sua contrapartida, o anseio por eliminar o pai enquanto rival, é o destino próprio ao humano, de cada sujeito: “…o oráculo lançou a mesma praga sobre nós antes de nascermos, como sobre ele [Édipo].” Nesse sentido, o oráculo seria comparável à ordem significante, à cadeia geracional em que cada sujeito, já determinado, não obstante deverá tomar lugar.

[…]

De acordo com a interpretação do eminente helenista [Knox], Édipo pode não ter escolhido matar o pai e desposar a própria mãe – antes, este é o destino do qual tenta escapar -, mas escolheu saber aquilo que lhe fora re-velado. Ao pretender agenciar o próprio destino, desconhecendo sua dimensão de opacidade, sela sua perdição. A saga de Édipo não é uma tragédia de destino, mas de mestria. Justo porque pretende ser livre, livrar-se do jugo do destino vaticinado pelo oráculo, o herói se condena. Não se é livre, mas sim responsável: Antígona é o avesso de Édipo rei.

© Ingrid Vorsatz – Antígona e a ética trágica da psicanálise (excerto) – Zahar

Ingrid Vorsatz – Antígona e a ética trágica da psicanálise

Ingrid Vorsatz

JUÍZO ÉTICO

O aporte que a psicanálise traz ao campo da ética advém do conceito maior freudiano. Uma vez estabelecido o inconsciente (das Unbewusste) como regente do aparato psíquico, a distinção entre ação e intencionalidade cai por terra, já que o móbil do ato pode ser inconsciente, advindo de um lugar heterogêneo – inassimilável à vontade ou à deliberação autônoma do agente. A causa é heterônoma, mas nem por isso a responsabilidade imputável ao sujeito é menor; ao contrário, a questão ética implicada na visada psicanalítica refere-se à tomada de posição do sujeito diante do que lhe advém como constrangimento do campo de Outro. Trata-se, portanto, de uma heteronomia isomórfica a uma heterotopia, indicando que a questão é topológica: advir ali onde isso era – Wo es war, soll Ich werden – implica um reviramento da problemática ética, pelo qual a causa (o desejo inconsciente) só existe (ex-siste) na medida em que é sustentada enquanto tal, em ato, por um sujeito.

“Wo es war, soll ich werden”, “Onde isso era, [eu] devo sobrevir”. Esta magistral definição que Freud nos dá do processo psicanalítico, indica-nos bem onde situar o sujeito.

Para a psicanálise, sujeito é o “ser humano submitido às leis da linguagem que o constituem e manifesta-se de forma priveligiada nas formações do inconsciente” (lapsos, actos falhados, sonhos, sintomas,etc). J. Lacan ao mostrar que o inconsciente está estruturado como uma linguagem, demonstra que só há, como sujeito, o sujeito do inconsciente.

[…]

O termo sujeito introduzido por Lacan em psicanálise serve para trabalhar com a hipótese do inconsciente sem anular a sua dimensão essencial de não-sabido (Unbewuste). “Qual é esse outro a quem estou mais ligado do que a mim, visto que no seio mais consentido da minha identidade comigo mesmo, é ele quem me agita? A sua presença só pode ser entendida num segundo grau de alteridade que o situa desde logo em posição de mediação em relação ao meu desdobramento comigo como se fosse com um semelhante.” (J.Lacan)

© Maria Belo, excerto, texto completo em: http://www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&link_id=309:sujeito-da-enunciacao-sujeito-do-enunciado&task=viewlink

© Ingrid Vorsatz – Antígona e a ética trágica da psicanálise (excerto) – Zahar

Ingrid Vorsatz – Antígona e a ética trágica da psicanálise

Ingrid Vorsatz

ANTÍGONA E O METRÔ DE PARIS

Guardiã da morte que a vida carrega, Antígona não hesita: age. É preciso confiar o corpo do irmão morto à terra, nomeada aqui não como , mas chtôn – que significa tanto o solo tebano como as profundezas subterrâneas em que habitam os deuses não olímpicos, o Hades, lugar dos mortos.

A terra [aqui] não é a polis, ela não é o sítio da cidade onde se reúne um mundo. Ela é, ao contrário, o abismo sobre o qual a cidade pode ser “fundada”. A terra [chtôn] protege o sítio de um mundo. Ela abriga. Os vivos e os mortos. Dos quais ela é guardiã. Em seu próprio retiro. A tragédia … lembra à cidade o sentido daquilo que a guarda e a salvaguarda, uma vez que ela esquece essa dimensão da terra como abismo.

Toda essa história sobre a relação do ato de Antígona em “confiar o corpo do irmão morto à terra” faz-me lembrar da relação da população de Paris com o seu metrô. Parte do desafio de se fazer aderirem ao novo tipo de transporte era vencer o estigma do subterrâneo: as profundezas sob a terra sempre foram associadas ao desconhecido, local que “protege o sítio de um mundo. Ela abriga. Os vivos e os mortos”, o pensar da “dimensão da terra como abismo”. A solução foi humana: com a art nouveau, transformaram as entradas do metrô de Paris em cultos à nova engenharia, fruto das novas invenções tecnológicas, portais diretos a um novo mundo do homem subvertendo a natureza, dominando seu medo pelo desconhecido através da máquina.

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© Lucas Gobatti

© Ingrid Vorsatz – Antígona e a ética trágica da psicanálise (excerto) – Zahar

Ingrid Vorsatz – Antígona e a ética trágica da psicanálise

Ingrid Vorsatz

USO DA MÁSCARA NA TRAGÉDIA ANTIGA

A máscara trágica, portanto, em vez de remeter a uma origem ancestral tem uma função significante: representa o herói trágico. Representa-o na sua função de encarnar, pela primeira vez, “o personagem individualizado cuja ação forma o centro do drama”, bem como a problemática do agente em relação à ação. Além disso, o uso desse artefato na tragédia antiga remete a algumas funções, dentre as quais poderíamos destacar a prevalência da palavra sobre a imagem. Com a face coberta, é na força da enunciação do herói trágico que reside o essencial do que ali é apresentado. Assim, paradoxalmente, a função da máscara trágica seria a de barrar a dimensão imaginária em prol da discursiva – colocando a imagem a serviço da palavra.

© Ingrid Vorsatz – Antígona e a ética trágica da psicanálise (excerto) – Zahar

Giulio Carlo Argan – Arte Moderna

Giulio Carlo Argan

O ALCANCE SOCIAL DA NOVA ESTRUTURA ESPACIAL DEFINIDA POR CÉZANNE

Mas como conciliar a atualidade de Cézanne com sua aparente indiferença pelos problemas sociais típicos de sua época? Encerrado em seu estúdio, distante do mundo, ele pensa apenas na pintura, não lhe aflora a suspeita de que seja possível isolar um problema social dentro do problema geral da realidade.

Numa das obras mais tardias e grandiosas, a última das várias imagens do Monte Sainte-Victoire, vê-se o grau de lucidez estrutural a que chegou o mestre. É esta, sem dúvida, uma das obras mais “especulativas” ou “ontológicas” de Cézanne, ponto de chegada de sua pesquisa dirigida à compreensão global do ser e de sua estrutura vital: mas pode-se negar que esta “filosofia” pura seja pura pintura? E poder-se-ia porventura censurar um artista empenhado nesse problema total, disposto a demonstrar que, se o contato direto com o mundo é pensamento, o pensamento também é contato direto com o mundo, por não ter considerado tal ou qual problema particular de sua época, mesmo se tratando da guerra franco-prussiana ou da Comuna?

De qualquer maneira, Cézanne enfrentou implicitamente o problema social, como problema central da época, ao definir não só a função, mas também o dever do artista no mundo, e naquele tipo de mundo. O “problema do quadro”, seu problema de representar a natureza, a sociedade ou a vida interior e secreta do artista, é o problema central da pintura oitocentista, não sendo senão o problema, cada vez mais premente devido à afirmação do pragmatismo industrial e capitalista, referente à razão de ser e à possibilidade de ação do artista nesse tipo de sociedade. Tal problema não se resolveria com reações psicológicas, sentimentais, práticas, optando por este ou aquele, representando os camponeses no trabalho ou os senhores a passeio no Bois de Boulogne.

A solução positiva é a de Cézanne; e isso porque Cézanne viu na abertura impressionista, que a Van Gogh se afigurara como o limite extremo do Romantismo, a perspectiva de um novo classicismo, a premissa de uma relação nova, não mais contraditória, não mais angustiada, entre o homem e o mundo. Perguntar sobre o alcance social da nova estrutura espacial definida por Cézanne é o mesmo que perguntar sobre o alcance social do novo estruturalismo arquitetônico com que os técnicos do ferro e do cimento definiram o processo pelo qual a sociedade moderna constrói seu espaço, a dimensão de sua existência; e devemos insistir uma vez mais sobre o paralelismo, se não a analogia, entre os dois fenômenos.

© Giulio Carlo Argan – Arte moderna (excerto adaptado) – Companhia das Letras

Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas

CULTURA E FEMINISMO

Tem gente que diz que a mulher é subordinada ao homem porque isso faz parte da nossa cultura. Mas a cultura está sempre em transformação. Tenho duas sobrinhas gêmeas e lindas de quinze anos. Se tivessem nascido há cem anos, teriam sido assassinadas: há cem anos, a cultura Igbo considerava o nascimento de gêmeos como um mau presságio. Hoje essa prática é impensável para nós.

Para que serve a cultura? A cultura funciona, afinal de contas, para preservar e dar continuidade a um povo. Na minha família, eu sou a filha que mais se interessa pela história de quem somos, nossas terras ancestrais, nossas tradições. Meus irmãos não têm tanto interesse nisso. Mas não posso ter voz ativa, porque a cultura Igbo favorece os homens e só eles podem participar das reuniões em que as decisões familiares mais importantes são tomadas. Então, apesar de ser a pessoa mais ligada a esses assuntos, não posso frequentar reuniões. Não tenho direito a voz. Porque sou mulher.

A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura.

© Chimamanda Ngozi Adichie – Sejamos todos feministas – Companhia das Letras

GEDANKEN, em alemão, “pensamentos”, foi a forma que eu encontrei de, ao mesmo tempo, consolidar e compartilhar o que passa pela minha cabeça. GEDANKEN mostra as pedras nas quais pisei, os líquens que escorreguei, as poças que não achei tão fundas. É uma compilação de ideias fluidas, completas, autoexplicativas e não relacionadas: uma ode a tudo o que me afetou de alguma maneira.

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