Victor Hugo – O Corcunda de Notre Dame

TUDO ERA DE PEDRA

Mais abaixo, era horrível de se ver, o telha de Saint-Jean-le-Rond parecia um pequeno cartão dobrado ao meio. O arquidiácono examinava também, uma após a outra, as impassíveis esculturas da torre, igualmente suspensas no precipício, mas sem parecerem assustadas nem demonstrarem qualquer solidariedade. Em volta, tudo era de pedra: os monstros de bocarras escancaradas, à frente; o chão duro da praça, abaixo; e Quasímodo que chorava, acima.

© Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame (excerto) – Zahar

Victor Hugo – O Corcunda de Notre Dame

ISTO MATARÁ AQUILO

Se quisermos, muito sumariamente, resumir o que dissemos até aqui, deixando de lado mil comprovações e também mil objeções de detalhe, chegamos ao seguinte: a arquitetura foi, até o século XV, o registro principal de humanidade, sem que nesse intervalo aparecesse no mundo um só pensamento mais complicado que não se tornasse edifício. Ou seja, toda ideia popular, assim como toda lei religiosa, teve seus monumentos e o gênero humano, enfim, nada pensou de importante que não fosse escrito na pedra. E por quê? Porque todo pensamento, tanto religioso quanto filosófico, quer se perpetual, porque a ideia que influenciou uma geração quer influenciar outras e deixar sua marca. E que imortalidade precária a do manuscrito! Um edifício é um livro bem mais sólido, durável e resistente! Para destruir a palavra escrita, bastam uma tocha e um turco. Para demolir a palavra construída, é preciso uma revolução social, uma revolução terrestre. Os bárbaros passaram pelo Coliseu, o dilúvio, talvez pelas pirâmides.

No Século XV, tudo muda.

O pensamento humano descobre um meio de se perpetuar, não somente mais durável e mais resistente do que a arquitetura, mas também mais simples e mais fácil. A arquitetura perde o trono. Às letras de pedra de Orfeu sucedem as letras de chumbo de Gutenberg.

O livro mata o edifício.

A invenção da imprensa é o maior acontecimento da história. É a revolução-mãe. É o modo de expressão da humanidade que se renova totalmente, é o pensamento humano que se subtrai a uma forma e se investe em outra, é a completa e definitiva mudança de pele da serpente simbólica que, desde Adão, representa a inteligência.

Sob a forma impressa, o pensamento se torna imperecível como nunca; se torna volátil, impossível de se prender, indestrutível. Mistura-se ao ar. No tempo da arquitetura, ele era montanha e poderosamente se apossava de um século e de um lugar. No tempo da imprensa, se torna bando de pássaros, se espalha aos quatro ventos e ocupa, ao mesmo tempo, todos os pontos do ar e do espaço.

[...]

Se, em vez de monumentos característicos, como estes de que acabamos de falar, examinarmos o aspecto geral da arte entre os séculos XVI e XVIII, observaremos os mesmos fenômenos de declínio e definhamento. A partir de Francisco II, a forma arquitetônica do edifício se apaga cada vez mais, realçando a forma geométrica, como se realça a estrutura óssea de um doente emagrecido. As belas linhas da arte cedem às frias e inexoráveis linhas do geômetra. O edifício deixa de ser um edifício, torna-se um poliedro. Mas a arquitetura faz de tudo para esconder essa nudez. O frontão grego se inscreve no frontão romano e vice-versa. Continua sendo o Panteão no Parthenon, São Pedro de Roma. Vejam as casas de tijolo e quinas de pedra, de Henrique IV: a praça Royale e a Praça Dauphine. E as igrejas de Luís XIII, pesadonas, atarracadas, de arco abatido, socadas, com cúpulas sobrepostas como uma corcunda. E a arquitetura do cardeal Mazarin, com seu mau pasticcio italiano, visto no Quatre-Nations. Ou os palácios de Luís XIV, compridos quartéis para cortesãos: rígidos, glaciais, tediosos. E, para concluir, Luís XV, com florezinhas e sinuosidades, verrugas e fungos que desfiguram a velha arquitetura caduca, desdentada e vaidosa. De Francisco II a Luís XV, a doença cresce em progressão geométrica. A arte se reduz à pele em cima dos ossos. Miseramente agoniza.

Enquanto isso, o que se passa com a imprensa? Toda essa vida que abandona a arquitetura se incrusta nela. À medida que a arquitetura decai, a imprensa infla e floresce. Esse capital de forças que o pensamento humano aplicava em edifícios passa a ser aplicado em livros. De forma que, a partir do século XVI, a imprensa, crescendo na medida em que a arquitetura definha, disputa a batalha e ganha. No século XVII, ela já está suficientemente soberana, triunfante e firme em sua vitória para oferecer ao mundo o espetáculo de um grande século literário. No XVIII, tendo passado muito tempo à sombra da corte de Luís XIV, ela retoma a velha espada de Lutero e arma Voltaire, correndo em seguida, amotinada, ao ataque da velha Europa, já eliminada a expressão arquitetural. No final do século XVIII, tudo tinha sido destruído. E tudo se reconstrói no XIX.

Agora perguntamos: qual das duas artes há três séculos representa realmente o pensamento humano? Qual o traduz? Qual exprime não só suas manias literárias e escolásticas, mas também seu vasto, profundo e universal movimento? Qual delas constantemente se superpõe, sem ruptura nem lacuna, ao gênero humano, como monstro de mil pés em marcha? A arquitetura ou a imprensa?

A imprensa.

© Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame (excerto) – Zahar

Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame

OS INCONVENIENTES DE SEGUIR UMA MULHER BONITA À NOITE PELAS RUAS

Sem saber o que fazer, Gringoire seguiu a cigana. Viu-a tomar com a cabra a rua de la Coutellerie e tomou, então, a rua de la Coutellerie.
— Por que não? — perguntou-se.
Gringoire, filósofo prático das ruas de Paris, já havia observado que nada é mais propício ao devaneio do que seguir uma bonita mulher sem saber aonde ela vai. Há, nessa abdicação voluntária do livre-arbítrio, nessa fantasia que se submete a outra fantasia, que a desconhece, uma mistura de independência extravagante e obediência cega, algo entre a escravidão e a liberdade, que muito agradava a Gringoire, espírito essencialmente misto, indeciso e complexo, adaptado a todos os extremos, incessantemente suspenso entre todas as propensões humanas e usando uma para neutralizar outra. Ele gostava de se comparar ao túmulo de Maomé, atraído em sentidos inversos por dois ímãs e eternamente oscilante entre o alto e o baixo, entre a abóbada e o chão, entre a queda e a ascensão, entre o zênite e o nadir.
Se Gringoire vivesse nos nossos dias, como se manteria bem entre o clássico e o romântico!

© Victor Hugo – O corcunda de Notre Dame (excerto) – Zahar

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

SOBRE MÉTODOS DE CONTAGEM II

Lembre-se de que, além da capacidade universal humana de representar conjuntos de indivíduos, as pessoas conseguem acompanhar números exatos pequenos (até três ou quatro), e também conseguem estimar quantidades bem maiores, embora apenas de forma aproximada (esse era o sistema numérico por analogia documentado por Dehaene e Spelke em seu estudo com bilíngues e imagens do cérebro). Esses dois componentes da noção de número estão presentes em bebês e em macacos, e evidentemente em todas as sociedades humanas. Sistemas mais sofisticados capazes de contabilizar números exatos maiores aparecem mais tarde, tanto na história quanto no desenvolvimento infantil. Eles tendem a ser inventados quando uma sociedade desenvolve a agricultura, gera grandes quantidades de objetos indistinguíveis e precisa rastrear suas magnitudes exatas, em especial quando eles são negociados ou taxados.
[...]
Não é que seja impossível determinado tipo de linguagem se dissociar de determinado tipo de sociedade, circunstância que faria com que a hipótese whorfiana fosse por princípio impossível de pôr à prova. As línguas evoluem e divergem sob vários aspectos por causa da dinâmica interna de pronúncia e gramática e dos caprichos da história. Por essas razões, sociedades semelhantes podem ter tipos diferentes de idioma, como o húngaro e o tcheco ou o hebraico e o inglês. Para que o Determinismo Linguístico seja verdadeiro, essas diferenças tipológicas, sozinhas — e não nenhuma diferença correlacionada no tipo de sociedade —, teriam de canalizar os pensamentos das respectivas sociedades e falantes para direções diferentes. No exemplo que temos à mão, teria de haver povos impedidos de desenvolver o conjunto de práticas culturais que inclui contar por causa do acidente histórico de que sua língua por acaso não possuía palavras para números, enquanto povos semelhantes, que tiveram a sorte de falar uma língua com palavras para números, decolaram para a sofisticação matemática. No mundo real, a história mostra que, quando as sociedades ficam mais organizadas e complexas, seja por si sós ou sob a pressão de vizinhos, rapidamente desenvolvem ou tomam emprestado um sistema de contagem, independentemente do seu tipo de língua.

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento (excerto) – Companhia das Letras

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

SOBRE MÉTODOS DE CONTAGEM I

A alegação mais descarada do Determinismo Linguístico nos últimos anos é o estudo de Peter Gordon sobre a noção de números num povo amazônico. Como já lemos, Gordon defendeu a “versão mais forte” da hipótese whorfiana, e foi assim que o estudo foi descrito pela imprensa em 2004. A tribo pirahã, do Brasil, como muitos outros povos caçadores e coletores,  conta apenas com três palavras para números, que significam “um”, “dois” e “muitos”. Mesmo essas são usadas de forma imprecisa, mais ou menos como a expressão em inglês a couple, que tecnicamente se refere a dois, mas que é  muitas vezes usada para outros números pequenos.
[...]
Antigamente, eu ficava estupefato com a prevalência de sistemas de contagem “um, dois, muitos” entre povos iletrados, até que perguntei ao antropólogo Napoleon Chagnon (que tinha estudado outra tribo amazônica, os ianomâmis) como eles surgem. Ele disse que em seu dia-a-dia os ianomâmis não precisam de números exatos porque seguem os objetos como indivíduos, um por um. Um caçador, por exemplo, reconhece cada uma de suas flechas e, portanto, sabe se uma está faltando sem ter de contá-las. É o mesmo costume mental que faria a maioria de nós ter de parar para pensar se alguém nos perguntasse quantos primos de primeiro grau temos, ou quantos eletrodomésticos temos na cozinha, ou quantos orifícios temos na cabeça.

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento – Companhia das Letras

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

SOBRE DEBATES INTELECTUAIS E GARRAFAS DE VINHO

Qualquer pessoa que participe de debates intelectuais passa a reconhecer as táticas, as tramas e os truques sujos que os debatedores usam para confundir o público quanto os fatos e a lógica não estão a seu favor. Há o apelo à autoridade (“Spaulding diz isso, e ele tem um Prêmio Nobel”), a atribuição de motivos (“Firefly só está querendo chamar a atenção e conseguir dinheiro”), xingamentos (“A teoria de Driftwood é racista”) e a difamação por associação (“A Hackenbush é financiada por uma fundação que já financiou nazistas”). Talvez a mais conhecida seja a montagem e a destruição de um espantalho, um estratagema tão versátil que às vezes fica difícil imaginar como a vida intelectual sobreviveria sem ele.

A beleza do espantalho é que ele pode ser usado de inúmeras maneiras. A mais trivial é a luta de boxe com o espantalho, em que se substitui um oponente formidável por um simplório facilmente derrotável. Mas existe também o espantalho bifásico: primeiro monte a efígie, depois admita que afinal ela não é tão irreal assim, mas arme essa admissão como uma capitulação a suas críticas devastadoras. E há também o  espantalho do sacrifício, útil quando se teme estar nas beiradas da respeitabilidade: monte uma versão fanática da teoria de alguém, depois se distancie dela para comprovar sua moderação. É a mesma estratégia que os vendedores de vinho usam quando põem uma garrafa de preço exorbitante em cada prateleira. Eles sabem que compradores inseguros gravitam para a média, portanto, se houver uma garrafa de cem dólares à mostra, eles vão comprar a de trinta dólares, ao passo que, se a garrafa mais cara custasse trinta dólares, eles se contentariam gastando dez.

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento – Companhia das Letras

Steven Pinker – Do que é feito o pensamento

Caro Amigo Branco
Quando nasço sou preto
Quando cresço sou preto
Quando adoeço sou preto
Quando saio no sol sou preto
Quando tenho frio sou preto
Quando tenho medo sou preto
E quando morro sou preto.

Mas você, amigo branco
Quando nasce é rosa
Quando cresce é branco
Quando adoece fica verde
Quando sai no sol fica vermelho
Quando tem frio fica azul
Quando tem medo amarela
E quando morre é cinza
E tem a cara-de-pau de dizer que eu é que sou de cor?

© Steven Pinker – Do que é feito o pensamento – Companhia das Letras – poema passado a Steven Pinker por Saroja Subbiah, e que circulou entre os funcionários maoris em um prédio do governo neozelandês. Da polissemia das palavras para cores.

GEDANKEN, em alemão, “pensamentos”, foi a forma que eu encontrei de, ao mesmo tempo, consolidar e compartilhar o que passa pela minha cabeça. GEDANKEN mostra as pedras nas quais pisei, os líquens que escorreguei, as poças que não achei tão fundas. É uma compilação de ideias fluidas, completas, autoexplicativas e não relacionadas: uma ode a tudo o que me afetou de alguma maneira.

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